O "Café do Geléia", fundado por Giovanni Di PaZZo, começou como um pequeno café na esquina da rua Orlontis com a rua Coronel Verde. Servindo apenas poucas variações do simples café o lugar foi ganhando fama devido ao seu ambiente altamente aconchegante contendo fotos de viagens feitas pelo "Geléia" (apelido carinhoso de Giovanni), relíquias e artefatos adquiridos em suas diversas aventuras pelo mundo em busca do melhor café que existia. Certo ano, Giovanni conseguiu por métodos misteriosos o melhor café que os que ali passavam já haviam provado e começou a plantá-lo e serví-lo em seu pouco famoso "Café do Geléia". O lugar ganhou fama pelo seu café fabuloso e pelo ambiente que sugeria um conto de histórias entre amigos. Agora vivemos estas histórias... Bem vindos ao "Café do Geléia".

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Helen


            - Eu não acredito que você ainda guarda esse monte de tralha, Geléia!
            A mulher de cabelos negros e encaracolados olhava ao seu redor com um misto de confusão e de maravilha. A sala era apertada, mas parecia que se todas aquelas coisas saíssem de lá, daria para abrir um salão de dança.
            - É, eu não sei nem por onde começar a arrumar isso... – disse Geléia coçando a nuca e escondendo uma singela verdade.
            - Você não quer se livrar disso, né? – perguntou Helen, olhando no fundo dos olhos de Geléia e revelando o que ele escondia. Ele só conseguiu dar de ombros com uma cara encabulada.
            Helen sempre foi boa em descobrir as coisas. Ela teria se dado muito bem como detetive, investigadora forense, historiadora e esse tipo de coisa que só é empolgante em filmes e seriados.
            - Um cubo mágico, brinquedos, um monociclo, papéis, propagandas de duas décadas atrás, papéis, uma televisão, um telejogo... Deuses... você já fuçou aqui de verdade? Digo, de verdade mesmo? – ela estava sentada se soterrando nas tralhas em que mexia.
            - Eu entro aqui de vez em quando. Aliás, preciso trocar essa lâmpada aqui. – Geléia pareceu subitamente interessado em uma das lâmpadas que iluminava o quartinho. Estranhamente isso o fez lembrar de quando ele e Helen brincavam de cabaninha na casa da avó dela. Eles tinham cerca de seis anos na época e era sempre ele que tinha que montar a cabana enquanto Helen a forrava com coisas incrivelmente úteis como um controle remoto sem pilha, bonecas velhas, uma escumadeira, duas panelas – que eram usadas como capacetes ou banquinhos – e mais esse tipo de coisa.
             - Lembra de quando a gente brincava de cabaninha na casa da minha avó, Geléia?
            E esse era quase um super-poder dela: ler a mente de Geléia.
             - Claro! Depois de colocar a casa toda dentro da cabana, você se cansava e queria parar de brincar!
            - É, não tinha muito mais o que fazer ali!
            Helen tinha acabado de voltar de viagem. Suas malas ainda estavam atrás do balcão e eram muito pequenas, o que era estranho para alguém que ficou seis anos fora do país. No início havia saído para estudar russo, mas parou no meio e resolveu sair vagando pela Ásia. Ela simplesmente não parava, nunca havia ficado parada em lugar nenhum. Era do tipo de pessoa que vivia viajando sem ter nenhuma fonte de renda, vivia o tipo de vida que só quem vive entende. Geléia estava louco para saber de sua vida fora, mas sabia que perguntar era inútil. Ela falaria dali a alguns minutos, quando eles parassem um pouco e um silêncio fizesse menção de aparecer.

            - Aliás, não tem mais o que fazer aqui. Quer um café, Geléia?
            - Eu não tomo mais café, mas aceito um chá!
            Então os dois saíram do quarto e foram para o balcão, onde o Menino Ottis fingia ser o atendente e mantinha uma discussão fervorosa com Diego sobre os benefícios do refrigerante no crescimento de uma pessoa.

            A luz foi apagada atrás deles e algo terrível no meio daquela bagunça acordava depois de um longo sono.

"Aliás, não tem mais o que fazer aqui. Quer um café, Geléia?"
 Texto enviado por Ricardo Pedroni (Elkreme)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Diálogos

            - Tudo bem. Eu troco meu “Cavaleiro da Pele de Prata”. – K.D. estava com um baralho em mãos e algumas cartas estavam colocadas sobre a mesa. Gregório e ele estavam concentrados olhando diversos tipos de cartas. – Mas só vou trocar pelo seu “Enganador da Estrela Negra”! – Ele apontou para uma carta de Gregório.
            - Impossível! Você sabe que não troco essa carta com ninguém! Ela tem ataque 9 e habilidades como Difamação e Fuzarca. Isso é essencial em qualquer...
            - Ei! – Interrompeu Thelma que estava fitando a mesa a balançando os pés que não alcançavam o chão. – Por que vocês não usam o mesmo baralho? Dividam suas cartas, oras...
            Se K.D. não estivesse usando um capacete de Darth Vader, Thelma teria medo de olhar para ele. Menino Ottis, percebendo a tensão que crescia, decidiu quebrar o gelo:
            - Caras! Vocês ficaram sabendo que o Rodolfo “Recebeu um Hitler”? – Caiu em gargalhada junto a Gregório.
            Thelma e K.D. não entenderam a piada e logo perguntaram do que se tratava “Receber um Hitler”, mas Geléia veio com seus salgados e refrigerantes e logo disse:
            - Acho melhor não falarem disso com uma dama à mesa, certo rapazes? – E partiu em direção à outra mesa, com outro assunto.

            Na mesa seguinte Diego e Ernesto pareciam altamente pensativos olhando para Tremoço fazendo poses. Diego parecia já ter desistido então estava concentrado nos amendoins servidos à sua frente. Foi em meio a mordidas altas que Ernesto arriscou dizer algo:
            -... Só consigo pensar em um avestruz!
            - Avestruz !? Ficou maluco? Este gesto claramente indica um Gorila!
            - Se quisermos que este plano dê certo precisamos melhorar sua interpretação – Ernesto começou a sacar um bloco de notas.
            - Plano? – Perguntou Diego. – Achei que só estivéssemos brincando de mímica...
            Tremoço concordou com a cabeça enquanto Geléia trazia seus respectivos cafés.
            - Um com adoçante, um com cobertura extra e... Sua Soda Italiana, Diego.
            - Obrigado, Geléia – Ele disse com um esboço de sorriso no rosto (Para os que o conheciam, esse era um gesto digno de lágrimas de felicidade).
            - De nada. Ah, e Ernesto... Eu acho que foi um gorila bem convincente.
            Tremoço olhava triunfante para o amigo. Seu bigode, agora com chantilly, não passava respeito algum. E Geléia continuou seu percurso.

            - Mas, cara! Esse assunto é magnífico! Milhares de filmes e livros foram feitos em cima disso... Ou seja, milhões de pessoas pensam nisso! – Dizia a Cineasta levantando as mangas expondo os braços tatuados.
            Depois de um longo olhar com o rosto pesado e maquiado, o Gótico deu sua opinião:
            - É só que... Não vejo motivo para querer viajar no tempo...
            - Como assim!? Seria incrível! Você poderia conhecer o passado e saber sobre o futuro!
            - Mas o passado é uma tristeza que ecoa até hoje nos tornando o que somos... E o futuro é obscuro e terrível quando se trata de nossa natureza, minha cara...
            A Cineasta se massageou entre os olhos depois de tirar os óculos. Os colocou de volta, se debruçou na mesa e disse ao Gótico:
            - ... Eu posso te recomendar um ótimo analista, sabe?
            Quando Geléia chegou, os dois estavam se olhando com um clima tenso.
            - Aqui estão – Disse ele com o ar amigável de sempre – Um capuccino e o vinho de sempre que, incrivelmente, só você pede, meu amigo!
            - Valeu, Geléia! – Disse a Cineasta – Quem sabe com um pouco de bebida meu amigo aqui não se interesse um pouco por viagem no tempo. Geléia o olhou com um sorriso simpático e disse:
            - Assista “Primer”, meu amigo pessimista... Assista “Primer”
            E partiu.
            - “Primer”... Esse sabe o que diz! – a Cineasta sorriu e provou um gole de seu capuccino.

            Era fim de tarde e os clientes eram os costumeiros. Geléia sempre foi eficaz ao entregar os pedidos e recebe-los. Quando o sol estava se pondo e deixando atrás de si as cores mais bonitas no céu, o gerente decidiu ficar à porta do local fumando seu cachimbo para aproveitar o movimento que estagnava. Ao longe, em meio a luz ofuscante do crepúsculo, Geléia podia ver o Artista atravessando a rua e carregando algo.
            - E aí, Geléia! – Ele carregava uma caixa de papelão muito bem cuidada e envolta em papel que parecia turco.
            - Boa tarde, Artiste!
            - Cara, você por acaso conhece um tal de Dióstenes? – Ele perguntava olhando para a encomenda.
            Geléia pensou um pouco e disse:
            - Não me lembro de nenhum. Essa encomenda é para ele?
            - É... Um cara esquisito me entregou ela e disse para eu deixar aqui. Disse que você saberia o que fazer com ela.
            - Deixe no quarto lá nos fundos... Pretendo fazer uma limpeza nele de qualquer maneira.
            O Artista iria até os fundos, resistiria o impulso de verificar dentro da caixa e depois voltaria para sua mesa de costume e pediria por uma porção de pães de queijo e um café com chantilly. Geléia conhecia seus clientes e quando terminou de fumar e já estava voltando para dentro, ele deu de cara com o Artista que logo disse:
            - E que tal alguns daqueles maravilhosos pães de queijo, Geléia?
            Ele respondeu com um sorriso e os dois entraram. Sim, Geléia conhecia seus clientes, afinal eles tornavam este local o que ele era. Seu sonho.

"- Ei! – Interrompeu Thelma que estava fitando a mesa a balançando os pés que não alcançavam o chão. – Por que vocês não usam o mesmo baralho? Dividam suas cartas, oras..."

E eu posso não conhecer todos os meus leitores, mas obrigado a todos por ouvirem estas histórias e tornarem este lugar o que ele é.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Um Presente Muito Especial


O Café do Geléia também servia almoço, não todo dia, é claro, mas apenas em ocasiões especiais. Aquele era um típico dia 29, e como manda a antiga tradição, era data de comer nhoque. Ou gnocchi, como preferir.
            Todos os habituais clientes estavam presentes, a Cineasta, o Conde, o Gótico, dentre outros, aguardando ansiosamente a chegada da massa ao bufê. O Menino Ottis já havia amarrado um pano ao pescoço, para não sujar a camiseta. A refeição foi servida e estava realmente deliciosa, encheu os clientes de satisfação (menos o Gótico, que gemia a cada garfada), afinal, nada como ser bem recebido em um lugar tão diferente de onde você cresceu. Obviamente, nenhum deles era daquele lugar. O Café era notório por ser um refúgio para almas errantes, e muitas vezes, as pessoas que se conheceram e se identificaram em uma noite jamais voltariam a se ver. Nesse clima de aconchego e distância, enquanto todos conversavam, ouviu-se um lamento abafado.
            Não é incomum que alguns se emocionem naquele ambiente, mas não em um dia como esse, por isso, todos se entreolharam buscando encontrar a alma que sofria. No canto do Café, estava o Caixeiro, fitando suas botas com a cabeça baixa. Ao ser questionado sobre o motivo de sua lamentação, o Caixeiro relembrou, com um sorriso nostálgico, as épocas em que rodava as estradas de ferro vendendo mercadorias exóticas. Contou sobre o café de sua cidade natal, o Madigans, e das lindas mulheres que lá freqüentavam. Contou também sobre a infância de outrora e as amizades que a construíram com as mãos inocentes e aventurescas de filhos de artesãos e mercadores.
            A Cineasta jurou entender o que o Caixeiro sentia, mas o velho homem protestou dizendo que o que lhe afligia era diferente, ele não se encaixava mais no mundo. Suas botas artesanais, de couro claro e bem lustradas, já não eram mais objeto de inveja dos outros homens. Em que outro lugar ele poderia recomeçar, a quantos quilômetros dali estaria outra pessoa que poderia entendê-lo? Ninguém sabia o que dizer para o Caixeiro.
            Contou que viajava de trem de vez em quando, tentando se sentir vivo e ativo outra vez; disse, com risadas, que seu momento de maior glória na semana era tomar a insulina para diabetes. Em meio a tantas histórias de uma alma que já não era mais a mesma ele ganhou amigos que durariam uma noite, mas estariam sempre em uma memória tão boa quanto as velhas botas artesanais que tanto caminharam.
Aos poucos, o salão foi se esvaziando, até que só restava o Geléia limpando as mesas e observando as próprias memórias que decoravam a parede. Estranhamente, ninguém viu o velho homem sair.

            Algum tem depois o Menino Ottis relembrou o episódio:
            - O que aconteceu com o Caixeiro, afinal?
            - Não sei ao certo, mas outro dia um homem a cavalo me deixou um pacote...
            - E o que tinha nele?
            - Um presente muito especial... – disse Geléia, olhando para seus pés.

"Suas botas artesanais, de couro claro e bem lustradas, já não eram mais objeto de inveja dos outros homens."

Este texto é um presente muito especial de Walter Neto. Obrigado.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Infância

           Nada como um dia quente de verão. Para certas pessoas o calor é algo irritante só de se pensar, para outras é algo agradável que elas esperam sentir todos os dias. Para uma criança o tempo realmente não importa. Nada é motivo para deixar de aproveitar o dia.
            Mas o dia estava agradável. Um dia ensolarado, com uma brisa refrescante e nenhuma nuvem no céu fortemente azulado. Aqueles que prestassem atenção veriam crianças correndo para lá e para cá com seus brinquedos e às vezes até seus animais de estimação. Mas um grupo se destacava do resto. Se você prestasse atenção veria o Menino Ottis escondido no topo de uma arvore baixa usando um cocar e levando consigo uma espingarda de brinquedo que fazia um barulho de quebrada. Qualquer um diria que ele estava brincando de índio... Mas os adultos são muito sem graça. Ottis sabia que não estava em um parque, ele sabia também que tinha uma missão.
            Do topo da árvore ele podia ver toda a vastidão da Grande Planície. Ele estava fazendo seu turno de guarda para impedir que mais servos da Bruxa viessem até o forte. Seus amigos Gregório, Thelma e K.D. (cujo nome verdadeiro era desconhecido) estavam no forte recuperando forças e traçando novos planos para encarar os servos da Bruxa. Eles eram os últimos sobreviventes da Grande Planície. Todos os outros países já tinham sido dominados e crianças agora eram adultos sem imaginação ou cachorros com empregos e gravatas e o destino do mundo estava agora na mão deste pequeno grupo.
            A vigia estava calma. Calma demais. O fuzil laser de anti-matéria gravitacional deixava Ottis mais confiante, mas o medo nunca realmente saíra de seu coração. A Bruxa era um adversário formidável e seu exército de robôs era quase invulnerável. O vento soprando trazia sons com os quais Ottis já estava acostumado e, embora não fosse admitir se o perguntassem, ele estava quase caindo no sono com o tédio do posto que o colocaram. Mas o tédio logo foi quebrado. O vento parou e a terra tremeu. Ottis logo se levantou, segurou o fuzil com força e logo soprou a trombeta de alerta que foi escutada no forte.
            - Robôs? – Perguntou Thelma que encantava pedras com força explosiva.
            - Ottis nunca soaria a trombeta em vão! – Exclamou Gregório já se levantando e levando consigo seu Bastão Ancestral (feito com madeira da Árvore da Vida).
            Enquanto todos se levantavam, K.D. ficou para trás distraído com os dados que analisava em seu computador de bolso e só percebeu que estava ficando para trás depois de uma pedra atingir seu capacete cibernético. Depois do baque olhou confuso para os lados e viu Thelma parada na porta.
            - Pegue seu estilingue e venha! É hora da grande luta! – Ela correu para fora.
            - Sempre apressados! Eu estava vendo dados de luta em meu computador de batalha! – Gritou enquanto corria atrás do grupo.
            Quando todos chegaram até a arvore de vigia a terra tremia cada vez mais.
            - Cuidado pessoal! Eles trouxeram um Robô M.O.R.T.A.L. dessa vez!!! – Ottis exclamou enquanto olhava o horizonte.
            Todos olharam perplexos enquanto a multidão de ferro e eletricidade se movia em direção a eles acompanhada pelo monte assustador de metal.
            - Eles querem mesmo acabar com este território não é mesmo? – perguntou Thelma sorrindo diante do desafio.
            - O que é um robô M.O.R.T.A.L.? – Perguntou Gregório.
            - Máquina Opressora, Retalhadora e Tática de Assalto Local. É um dos robôs mais fortes da Bruxa! – Disse K.D. analisando seus dados de batalha.
            - Sem tempo para conversas pessoal! Aí vem eles! – Ottis armou seu fuzil.
            Disparos elétricos vieram na direção dos garotos. O chão era acertado com uma força absurda levantando terra e poeira no campo de batalha enquanto relâmpagos eram revidados com pedras explosivas e tiros anti-matéria. O barulho de metal retorcendo e se partindo era alto nas planícies e as crianças estavam fazendo um excelente trabalho. Mas o coração de todos foi partido ao som de uma risada estridente. Todos olharam para cima alarmados e Gregório exclamou:
            - Essa não! É a Bruxa!!! – E saltou para trás de uma moita
            - Bruxa!? Que história é essa Gregório? – Perguntou a mulher horrenda que parava entre eles e a horda de robôs.
            - Ah, mãe! Já é hora de ir embora? – Perguntou Thelma soltando sua capa de invisibilidade.
            - Sim, querida. Vamos encontrar seu pai para jantarmos. – A mãe de Thelma tentava limpar a poeira do vestido da menina.
            - Droga... É, meninos... Acho que os robôs terão que se ver com a gente na próxima...
            - Tudo bem, Thelma. – Disse Gregório enquanto acenava para ela.
            - É! Eles não terão chance da próxima vez! – Disse K.D. já sentando no chão a puxando seu baralho de Magic do bolso.
            - Então até outro dia, pessoal! – Ela correu para alcançar a mãe.
           
Ottis desceu da árvore, largou sua espingardinha, soltou um suspiro e disse:
            - Ainda bem que ela se foi. Mais alguns segundos e aquela garota iria nos trair. Certeza!
            Andou até os amigos sentados na grama e se deitou. K.D e Gregório imitaram o gesto.
            - Foi uma boa luta. – Disse K.D. soando feliz.
            - É... Sabe pessoal. Eu espero que isso não acabe nunca!
            E lá ficaram os garotos. Tramando planos e contando histórias e aproveitando a vida que sua idade lhes proporcionava. Afinal, eles tinham todo o tempo do mundo, por mais curto que ele fosse.

Mas o tédio logo foi quebrado. O vento parou e a terra tremeu.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Quem Possa Interessar...


            A noite estava tranqüila no Café. O lugar estava com a placa de “fechado” exposta para a rua e só os clientes de sempre ainda estavam por lá. A Cineasta conversava com um Artista que não respondia muito, Menino Ottis andava para lá e para cá e de vez em quando olhava para a televisão ligada no canal de desenhos para ele, o Conde e o Gótico conversavam e o Viajante estava sentado sozinho em seu canto contemplando a noite.
            Geléia estava atrás do balcão mexendo em uma caixa que achara no porão. Quando os clientes perceberam o barulho, alguns vieram ver do que se tratava.
            - E aí, Geléia! – Disse a Cineasta enquanto acenava ao andar. – Qual é a da caixa?
            - Devo dizer que estou assaz interessado nela, meu caro! – Dizia um já empolgado Conde.
            - Algumas velharias que encontrei no porão. Tem algumas coisas bem interessantes aqui...
            Depois de pedir licença o Conde começou a dar algumas olhadas por cima. Interessou-se por uma corrente de pescoço com um retrato dentro. Uma mulher jovem e linda cuja foto devia ter 100 anos ou mais e atrás da qual estava escrito “Para meu amado. Que esta seja uma luz em seu caminho para casa.”.
            - Eis que em algum lugar do globo uma alma se contraiu em desespero por perceber a falta de tal artefato! – o Conde segurava a corrente com força enquanto a segurava acima de sua cabeça onde a face derramava uma lágrima ao pensar na história do item.
            - E estas fitas? – Perguntava a cineasta.
            - Não sei... Mas dê uma olhada nelas em sua casa... Quem sabe não as exibimos aqui em alguma noite? – Respondeu Geléia enquanto pegava, cegamente, um envelope.
            O papel estava lacrado com um selo de cera irreconhecível. O abriu e percebeu que dentro havia uma carta escrita em um papel amarelado e levemente mofado nos cantos. A tinta estava sumindo, mas ainda era legível então começou a ler para si enquanto os outros olhavam os conteúdos da caixa.

            “A Quem possa interessar...
Escrevo isto para contar, a qualquer que possa um dia ler, a minha breve história....
            Nos conhecemos no final de Novembro eu e ela. Éramos dois solitários no mesmo local e nos vimos ao longe. Trocamos olhares tímidos antes de qualquer um tomar uma atitude e ir até o outro para tentar conversar. Não foi surpresa quando eu tomei a decisão e fui até ela dizendo um simples “Oi.”. Ela respondeu timidamente e lá ficamos. No começo a conversa foi mais difícil, mas com o tempo acabamos nos descontraindo e a conversa seguiu muito bem.
            Ela era linda. O grupo que estava fazendo musica ao fundo criava uma trilha sonora perfeita para nós dois. Não sei se ela sentiu o mesmo que eu, mas eu me apaixonei naquele momento. Nos beijamos naquela noite. Seus lábios tinham um gosto único que nunca cheguei a experimentar de novo... Seu cheiro me acalentou a mente e trouxe lágrimas aos meus olhos mais vezes do que posso me lembrar. Ela era linda.
            Ela não era graciosa, era um pouco desastrada. Não era a mais elegante do local. Mas para mim ela era a única e a mais linda naquele momento.
            Mantivemos contato e continuamos nos encontrando.
            Ela adorava passeios em parques. Lembro-me de todos os encontros que tivemos em meio a árvores, flores e piqueniques. Quando o sol começava a se por, ela se levantava, tirava as sapatilhas e, de pés descalços na grama, começava a dançar. Sua silhueta se movimentando escura contra o céu laranja me deixava paralisado olhando cada movimento do corpo curvilíneo. Ela queria ser dançarina e eu a apoiava em todas as decisões que tomava quando se tratava deste e de muitos outros assuntos.
            Eu queria dar proteção, conselhos, amor sincero e felicidade para ela. Mas por mais que eu sentisse felicidade ao lado dela, um pequeno fragmento de dúvida sempre existiu no meu coração por mais que eu sempre o ignorasse. Acredito nunca ter ouvido um “Eu te amo”. Vindo dela eu só ouvia “Eu te amo também”. Mas queria seguir em frente conosco.
            Ela não.
            Durante muito tempo não entendi o porquê. Talvez ela achasse que não tinha afeto o suficiente se comparando ao meu. Talvez ela estivesse cansada de tanto afeto. Talvez eu não estive sendo afetivo o suficiente... Muitas coisas se passavam na minha cabeça.
            Demorei a ter um pequeno momento sem ela na minha cabeça. Eu pensava nela todos os dias e no como poderíamos ter dado certo. Lembrava-me dela dançando. Lembrava-me de seu cheiro e de seu gosto. Do perfume de seus cabelos. Da pele macia correndo pelas minhas palmas...
            Ela depois conheceu outro homem. Tiveram um relacionamento que nunca compreendi... Mas ouso dizer que pelo pouco que ouvi do assunto, ela foi infeliz durante e depois de muito tempo terminado a relação...
            E aqui agora, nesta cama de hospital eu fico em observação para um possível segundo ataque cardíaco e tudo que me pergunto... É se ela viria me visitar...
            Obrigado pela atenção, leitor.”

            Geléia ficou em silêncio por um tempo.
            - O que foi, Geléia? – Perguntou a Cineasta com a mão no ombro do homem. Até o Artista havia se levantado para ir para perto dele.
            -... Gostei desta carta. Ela merece um espaço na parede...
            Ele se apressou e a colocou em um vidro reserva que tinha por perto e o pendurou na parede em um espaço vazio. Ficou observando a nova peça adquirida junto aos outros e falou:
            - Talvez alguém já tenha lido esta carta. Talvez ela tenha ido visitá-lo. Mas acho que esta carta diz muito sobre este lugar...
            Todos o olharam por um segundo esperando a frase que iria se seguir.
            - Aqui é um local que acolhe aqueles que não tem para quem voltar.

"Talvez alguém já tenha lido esta carta. Talvez ela tenha ido visitá-lo. Mas acho que esta carta diz muito sobre este lugar..."
 

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Exorcismo

            Mais uma noite de insônia. O Artista Solitário, percebendo que não dormiria hoje, foi ao Café do Geléia e pediu o de sempre. Levou consigo seu caderno e o velho lápis 3B que estava quase acabando. Borrachas sempre foram desnecessárias.
            Se dirigindo à sua mesa costumeira percebeu algo diferente. A Cineasta Desacreditada estava lá sentada, óculos brilhando sob a luz fraca, mão esquerda colocada embaixo da axila direita, mão direita mexendo e remexendo o expresso à sua frente. Ele caminhou devagar com o caderno embaixo do braço e o olhar pesado de sempre e logo se sentou no assento estofado oposto ao dela.
            - Sem sono de novo? – Ela perguntou sem tirar os olhos da bebida.
            - Só pra variar um pouco. O que está fazendo aqui? – Ele se debruçou na mesa.
            Ela mexeu um pouco mais na bebida, entortou a boca de leve e disse suspirando:
            - Eu assisti “O Exorcista” hoje... – Pegou a xícara e levou aos lábios.
            O Artista abriu seu caderno e começou a rascunhar. Nada lhe vinha à mente, mas rabiscos aleatórios têm o péssimo hábito de deixar uma idéia para trás. Às vezes tarde demais.
            - Você já assistiu esse filme, cara? – Arriscou a Cineasta.
            - Não. Filmes de Exorcismo não são meu forte... – Continuava rabiscando.
            - É que acho meio estranho, sabe? O Diabo em pessoa tomando posse de uma menina... Quero dizer, o que ele pode obter disso? Ele não vai conseguir poder político nem força física... Ela tem 12 anos, pelo amor de Deus!
            - As vezes esse demônio não é compreendido...
            - O que quer dizer? – Ela tomou um gole de café e rapidamente tirou dos lábios ao perceber que ainda estava muito quente.
            - Bem, quero dizer... Imagine que você vive no inferno... Alguns dizem que lá deve ser mais legal que o céu e tudo o mais... Mas acho que uma hora você se cansa...
            - Então possúi uma menina pra tentar viver normalmente de novo?
            - Acho que sim. – Uma idéia lhe veio a cabeça, mas logo fugiu.
            A Cineasta parou por um segundo. Até que fazia sentido, mas uma coisa ainda encafifava seu cérebro:
            - Então por que ela fica tão violenta?
            -... É nesse filme que vários demônios habitam o corpo dela?
            - Não. Isso é no “Exorcismo de Emily Rose”.
            - Hmm... Então vai ver nesse caso o demônio só está irritado por que é apenas uma criança de 12 anos. – Bebeu um pouco do café com chantilly e percebeu que o gosto estava começando a ficar estranho...
            - E se fossem vários demônios?
            - Bem, é só você parar para pensar. Imagine que você quer férias do inferno e decide habitar um corpo, mas junto de você chegam mais 40 demônios... As vezes 99! Basta ver Jesus Cristo contra o Legião. Enfim, acho que eu ficaria irritado de ter que dividir o espaço espiritual com mais um monte de demônios cuja violência e sede de sangue são intrínsecas de nossa raça.
            - Faz sentido. – Sua bebida agora estava na temperatura certa.


            - ARGH! – Berrou o Menino Ottis do outro lado do Café.
            - O que foi, Ottis? – Perguntou o Geléia preocupado com o menino ficando fora até tão tarde.
            - Meu refrigerante... Ta com gosto de agonia, violência e sofrimento. – Parou, olhou para a lata e voltou a beber. – Gostaria de bater nos meninos folgados da escola agora mesmo, Geléia.
            - Vou chamar o Padre.
 
"Quero dizer, o que ele pode obter disso? Ele não vai conseguir poder político nem força física... Ela tem 12 anos, pelo amor de Deus!"