O "Café do Geléia", fundado por Giovanni Di PaZZo, começou como um pequeno café na esquina da rua Orlontis com a rua Coronel Verde. Servindo apenas poucas variações do simples café o lugar foi ganhando fama devido ao seu ambiente altamente aconchegante contendo fotos de viagens feitas pelo "Geléia" (apelido carinhoso de Giovanni), relíquias e artefatos adquiridos em suas diversas aventuras pelo mundo em busca do melhor café que existia. Certo ano, Giovanni conseguiu por métodos misteriosos o melhor café que os que ali passavam já haviam provado e começou a plantá-lo e serví-lo em seu pouco famoso "Café do Geléia". O lugar ganhou fama pelo seu café fabuloso e pelo ambiente que sugeria um conto de histórias entre amigos. Agora vivemos estas histórias... Bem vindos ao "Café do Geléia".

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dia Chuvoso


            Às vezes as melhores memórias vêm em dias chuvosos. A chuva tem esse poder estranho, ela cai alto do céu, bate no chão e as milhares de gotas fazem um som agradável, quase hipnotizante, que faz aqueles que estão dentro de um aposento ou estabelecimento pararem por um instante para ficar observando a água escorrendo pelos vidros, descendo rua abaixo como um pequeno córrego ou saindo por uma velha calha no seu canto favorito.
            Existem pessoas que vêem a chuva como uma oportunidade para sair, sem rumo, e pensar em tudo, tudo que vier à cabeça durante sua caminhada ou passeio de carro por um mundo cinza que a poucos agrada. Alguns pegam seus guarda-chuvas e vão embora a pé e chuva adentro enquanto outros pegam as chaves do carro e dão a partida para uma jornada curta, mas muito esclarecedora por mais que deprimente às vezes. Mas uma coisa que todos esses peregrinos do dia-a-dia fazem é parar em algum momento, estejam eles longe ou perto de casa, eles simplesmente não querem voltar. O asfalto molhado que produz o som familiar de rodas espalhando água pelos cantos é agradável aos ouvidos depois da jornada e faz com que a pausa pareça mais ainda um santuário dentro de um mundo agitado que nunca dorme ou pára por causa das lágrimas dos céus.
            Neste momento estas pessoas escolhem locais favoritos ou locais novos para ser seu santuário temporário. Pode ser um restaurante onde os aperitivos e pratos principais já foram provados em ótimos momentos da vida e a bebida desce com um gosto nostálgico que trás um sorriso inconsciente e leves cócegas na espinha. Muitas vezes o santuário é uma livraria onde nem sempre o silêncio impera, mas todos estão focados em leituras, em buscas infinitas por livros que eles mesmos não sabem que buscam. Este santuário se torna mais um lugar onde se está cercado de pessoas, sons e histórias, mas ao mesmo tempo se está sozinho. Mas na maioria das vezes, este lugar é um café. Um estabelecimento em uma esquina pouco movimentada que estranhamente atrai toda sorte de indivíduo. Muitos passam, tomam seus cafés rápidos e outros ficam. Principalmente em dias chuvosos.
            E enquanto lá estão, observando a chuva cair, vêm as memórias. Um homem com muito que contar, mas sem muita vontade de fazê-lo pode ver seu irmão longínquo na chuva e sua saudade correrá pelo seu corpo como a água que cai. Uma jovem diferente com muito conhecimento de pouca aplicação pode ver seus sonhos mais distantes no vidro molhado por pequenas cachoeiras e dar um esperançoso sorriso. Um menino pode sair lá fora e pular em poças com seus amigos, rindo e se divertindo em mais uma situação que torna sua vida tão agradável. Três amigos podem chegar encharcados, se sentar e logo começar a discutir idéias sem muito se entenderem, mas gostando do momento que passam juntos.
            E ao mesmo tempo em que tudo isso pode acontecer, também pode existir um jovem. Um jovem com sonhos, idéias e toda uma história. Ele pode olhar para a janela, tirar seu gorro e lembrar de muito. O que o fez chegar até aqui, as pessoas que ele já amou, as pessoas que se foram, as pessoas que não o compreenderam, as pessoas que nunca vão voltar, os amigos que se vão sem dar explicação. Tudo. E ele pode ficar olhando pela janela por horas enquanto o gerente do lugar às vezes se pergunta se algo foi arrancado daquele jovem ou se ele talvez perdeu alguma coisa pelo caminho e esta é a hora de se arrepender.

            O jovem até poderia se dirigir ao seu amigo gerente e dizer que está tudo bem. Mas ele está muito ocupado pensando o tempo todo no sentimento tão antigo que finalmente voltou para seu coração, assim como a chuva que cai.

"Ele pode olhar para a janela, tirar seu gorro e lembrar de muito."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Escola

            - Como foi hoje?
            Foi a primeira coisa que o Menino Ottis ouviu ao entrar no café. Geléia sempre perguntava a mesma coisa quando o garoto voltava da escola e Ottis sempre respondia a mesma coisa:
            - Como assim? – Se sentou ao balcão.
            - Ora, você sabe. Aprendeu algo novo? Aconteceu algo de engraçado? Sabe... Quando se tem a sua idade a escola é sua vida.
            - Infelizmente, Geléia... Infelizmente...
            Geléia terminou de passar um pano no balcão e trouxe o refrigerante de sempre para seu cliente quando percebeu um roxo em seu rosto. Ele sabia que aquilo era praticamente da rotina de Ottis, mas puxou assunto da mesma maneira.
            - Foi aquele valentão do Tales de novo?
            - O que? – Ottis arregalou os olhos e olhou para o gerente. – Ah, sim... Acho que nunca vou entender o que ele ganha com isso, Geléia. As vezes acho que devia usar capacetes como KD. Da ultima vez ele colocou um capacete oficial do jogo “Halo” que deixou a mão do Tales doendo por uma semana.
            - Você deveria dar uma lição nele, Ottis.
            - Como eu posso dar uma lição em um repetente de 90 metros de altura?
            Geléia gargalhou e Ottis fechou a cara.
            - Ahh, garoto... Brigar é errado. Então se ele entrar em uma briga com você, você deve fazer tudo que é errado! Dedos nos olhos, mordidas, cuspe, chute no...
            - Você precisa de reforços! – Disse uma voz que vinha lá de trás.
            Menino Ottis e Geléia olharam para a porta enquanto a figura larga se aproximava acompanhado de uma bem esbelta. O Artista solitário andava com um ar irritado e ao seu lado vinha a Cineasta, curvada e levemente cansada.
            - Eu posso te ajudar com esse problema, garoto.
            - Você sabe artes marciais e vai tentar treina-lo? – Perguntou a Cineasta, rindo acompanhada do Geléia.
            - Não. Mas eu sou mais velho e posso te ajudar a arrebentar esse Tales. Que, aliás, tem nome de folgado! – Todos concordaram com a ultima frase.
            - Qual é, cara... Você vai mesmo ajudar o moleque a bater em outro? – Dizia a Cineasta soando preocupada.
            O Artista se aproximou dela e sussurrou:
            - Na verdade só quero assustá-lo. Sabe... Faze-lo molhar as calças.
            - Ah, sim! Você é realmente assustador, amigo! – Deu um tapinha em suas costas.
            O Artista e Ottis então combinaram de se encontrar no dia seguinte na saída da escola para acabar com a raça de Tales. Poucos sabiam, mas um arrepio subia pelas costas do Gótico e menos pessoas ainda sabem que sempre é bom não ignorar tais sinais.

            No dia seguinte o Café estava aberto aos poucos que por ali passavam, como sempre. Alguns tomavam cafés, outros pediam seus lanches e como o horário não era o mais movimentado, o silêncio era quase palpável no local. Geléia estava trocando os canais da TV acima do balcão quando ouviu algo parecido com o murmúrio de algo que há muito já deveria ter saído deste plano de existência e ao olhar para os lados percebeu que o Gótico se levantara de sua cadeira em um canto escuro e olhava pela janela.
            - Está tudo bem, amigo? – Arriscou o gerente.
            - Um vento gélido e fatídico se aproxima...
            Ouviu-se o sino acima da porta. O Artista estava entrando e Ottis o acompanhava, os dois discutindo nervosos sobre como um deveria ter usado um gancho de esquerda, sobre como deveriam usar capacetes e Geléia teve certeza de ter ouvido algo a respeito de “soltar Hadouken”.
            - Como foi hoje? – Perguntou e notou que os dois possuíam olhos roxos.
            - Ele não sabe brigar, Geléia! – Reclamava o garoto enquanto empurrava o Artista de lado.
            - Ei, Ei! Eu sei brigar! Mas se você tivesse me falado que ele repetiu de ano 19 vezes, talvez eu tivesse me preparado melhor!
            - Ah, qual é! Você é inútil, cara! Eu vou é comprar um capacete do Rocketeer!
            - Da próxima vez não peça minha ajuda, moleque!
            O silêncio era desconfortante, mas o Gótico sorria. Passados alguns minutos, o Artista se aproximou furtivamente do gerente.
            - Geléia. Tem como marcar um café com chantilly e uns pães de queijo na minha conta? O Tales roubou meu dinheiro...
           
            Geléia gargalhou e começou a preparar o café para seu cliente de cara emburrada. Quase sentiu saudades dos tempos de escola... Amigos, aulas, risadas... Até que olhou o olho roxo do artista. “Ainda bem que acabou” disse a si mesmo depois de pensar melhor.

            E por falar em pensar melhor... Como o Menino Ottis sabia quem era o Rocketeer?

"Ah, qual é! Você é inútil, cara! Eu vou é comprar um capacete do Rocketeer!"
 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A Cliente Nova

 A sineta pendurada na porta do Café anunciava a entrada de mais uma cliente. Geléia a olhou com o canto dos olhos, sem parar de enxugar o copo com o pano de prato há muito encardido. Apesar das diversas mesas vazias, em decorrência do horário, ela se sentou ao canto do balcão. Completamente molhada pela chuva, tirou o casaco e o gorro ensopados e os apoiou no banco ao lado.
            Geléia enxugou as mãos com o mesmo pano encardido e andou até a moça. Era uma cliente nova, coisa bastante rara em dias de chuva tão forte como aquele. A cliente tomou um susto ao ouvir a sua voz, como se não esperasse ser atendida.
            - Gostaria de algo para beber senhorita? Um café ou chá?
            - Um café seria bom! Estou tremendo de frio, ainda mais molhada desse jeito.
            - Vai querer comer algo também?
            - Não, só o café está ótimo.
            Ela foi servida rapidamente. O café fervendo esquentava seu corpo e reanimava um pouco seus ossos. Não possuía pretensões de ficar ali, nem sequer teria entrado, mas a chuva não lhe deu outra opção e agora parecia querer manter-la por lá. Bebeu o café vagarosamente enquanto olhava ao redor, analisando os outros clientes. Um garoto tomava refrigerante, novo demais para estar sozinho num lugar como aquele, no entanto estava. Um rapaz de gorro que desenhava incessantemente sugava seu café gelado pelo canudo sem sequer olhar para o copo. Uma moça jovem, de cabelos compridos e óculos falava alto ao celular, batendo com uma caneta em sua xícara de café; falava sobre câmeras, carros, ajudantes e um papo estranho que a nova cliente não conseguia compreender.
            Mas quem chamou sua atenção mesmo era o senhor sentado no canto mais afastado do Café, cabelos pretos já acinzentados, óculos de leitura, um casaco de frio velho e surrado. Ele fazia anotações num caderno que parecia ter a sua própria idade. Na mesa a sua frente havia algumas fotos do tipo Polaroid já quase desaparecidas, algumas moedas douradas, um relógio de bolso e alguns cartões postais. Ele olhava os objetos, fazia anotações, voltava a analisá-los e erguia as sobrancelhas.
            - É sempre bom ver clientes novos por aqui – disse Geléia se aproximando da moça para recolher sua xícara de café já vazia – Geralmente, em dias chuvosos assim, os velhos amigos são os únicos aparecer.
            - Todos aqui são habituais? – disse a cliente demonstrando certo interesse por aquelas pessoas tão curiosas.
            - Ah sim, todos esses. E muitos outros que não estão aqui agora. É raro que estejam todos aqui ao mesmo tempo, mas às vezes acontece. Um pessoal meio esquisito, mas muito legal.
            Ela olhava ao redor analisando cada um minuciosamente e todos eles continuavam com os mesmos afazeres. Geléia se apoiou no balcão e falou com a moça mais uma vez:
            - Não me leve a mal. Eu adoro novos clientes, mas sabe, não tem como não preferir os velhos.
            - Sim, eu entendo. Mas confesso que esse lugar me surpreendeu, talvez eu volte aqui mais vezes também.
            - E será muito bem vinda – Geléia sorriu simpaticamente e logo emendou – Quer mais um café?
            Ela fez que sim com a cabeça e ele foi buscar outra xícara. A chuva lá fora já dava um pouco de trégua, mas ela tinha tempo e iria esperar um pouco mais. A sineta anunciou a entrada de mais um cliente, um homem baixo de cachecol e agasalho carregando uma grande mala de viagem. Ele cumprimentou Geléia a distância e sentou-se ao lado do menino que ainda tomava refrigerante, meio que pendurado em sua cadeira e seus pés mal tocando o chão. “Mais um velho cliente” ela pensou, e nesse instante Geléia já lhe trazia a segunda xícara de café. Antes que ele pudesse sair ela segurou sua mão.
            - Posso lhe fazer uma pergunta?
            - Claro, só espero que eu possa a responder.
            - Quem é aquele senhor ali no canto? Provavelmente alguém que está sempre aqui.
            - Ah, sim! Acertou! Aquele é o Colecionador, provavelmente meu cliente mais antigo e mais fiel. Meio calado, mas um ótimo cliente.
            Ela ficou surpresa. Se era um cliente tão antigo assim, como Geléia não sabia seu nome e o chamava pelo estranho apelido de Colecionador? Aliás, colecionador de quê? Geléia olhou fixo nos olhos da nova cliente e disse:
            - Mas apesar de ser um bom cliente, não recomendo que você converse muito com ele. É uma ótima pessoa e ótimo em ouvir os outros, mas ele sempre pede algo em troca.

"- Não me leve a mal. Eu adoro novos clientes, mas sabe, não tem como não preferir os velhos."

Conto enviado por Fabio Banin (Seria uma veZ...)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Helen


            - Eu não acredito que você ainda guarda esse monte de tralha, Geléia!
            A mulher de cabelos negros e encaracolados olhava ao seu redor com um misto de confusão e de maravilha. A sala era apertada, mas parecia que se todas aquelas coisas saíssem de lá, daria para abrir um salão de dança.
            - É, eu não sei nem por onde começar a arrumar isso... – disse Geléia coçando a nuca e escondendo uma singela verdade.
            - Você não quer se livrar disso, né? – perguntou Helen, olhando no fundo dos olhos de Geléia e revelando o que ele escondia. Ele só conseguiu dar de ombros com uma cara encabulada.
            Helen sempre foi boa em descobrir as coisas. Ela teria se dado muito bem como detetive, investigadora forense, historiadora e esse tipo de coisa que só é empolgante em filmes e seriados.
            - Um cubo mágico, brinquedos, um monociclo, papéis, propagandas de duas décadas atrás, papéis, uma televisão, um telejogo... Deuses... você já fuçou aqui de verdade? Digo, de verdade mesmo? – ela estava sentada se soterrando nas tralhas em que mexia.
            - Eu entro aqui de vez em quando. Aliás, preciso trocar essa lâmpada aqui. – Geléia pareceu subitamente interessado em uma das lâmpadas que iluminava o quartinho. Estranhamente isso o fez lembrar de quando ele e Helen brincavam de cabaninha na casa da avó dela. Eles tinham cerca de seis anos na época e era sempre ele que tinha que montar a cabana enquanto Helen a forrava com coisas incrivelmente úteis como um controle remoto sem pilha, bonecas velhas, uma escumadeira, duas panelas – que eram usadas como capacetes ou banquinhos – e mais esse tipo de coisa.
             - Lembra de quando a gente brincava de cabaninha na casa da minha avó, Geléia?
            E esse era quase um super-poder dela: ler a mente de Geléia.
             - Claro! Depois de colocar a casa toda dentro da cabana, você se cansava e queria parar de brincar!
            - É, não tinha muito mais o que fazer ali!
            Helen tinha acabado de voltar de viagem. Suas malas ainda estavam atrás do balcão e eram muito pequenas, o que era estranho para alguém que ficou seis anos fora do país. No início havia saído para estudar russo, mas parou no meio e resolveu sair vagando pela Ásia. Ela simplesmente não parava, nunca havia ficado parada em lugar nenhum. Era do tipo de pessoa que vivia viajando sem ter nenhuma fonte de renda, vivia o tipo de vida que só quem vive entende. Geléia estava louco para saber de sua vida fora, mas sabia que perguntar era inútil. Ela falaria dali a alguns minutos, quando eles parassem um pouco e um silêncio fizesse menção de aparecer.

            - Aliás, não tem mais o que fazer aqui. Quer um café, Geléia?
            - Eu não tomo mais café, mas aceito um chá!
            Então os dois saíram do quarto e foram para o balcão, onde o Menino Ottis fingia ser o atendente e mantinha uma discussão fervorosa com Diego sobre os benefícios do refrigerante no crescimento de uma pessoa.

            A luz foi apagada atrás deles e algo terrível no meio daquela bagunça acordava depois de um longo sono.

"Aliás, não tem mais o que fazer aqui. Quer um café, Geléia?"
 Texto enviado por Ricardo Pedroni (Elkreme)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Diálogos

            - Tudo bem. Eu troco meu “Cavaleiro da Pele de Prata”. – K.D. estava com um baralho em mãos e algumas cartas estavam colocadas sobre a mesa. Gregório e ele estavam concentrados olhando diversos tipos de cartas. – Mas só vou trocar pelo seu “Enganador da Estrela Negra”! – Ele apontou para uma carta de Gregório.
            - Impossível! Você sabe que não troco essa carta com ninguém! Ela tem ataque 9 e habilidades como Difamação e Fuzarca. Isso é essencial em qualquer...
            - Ei! – Interrompeu Thelma que estava fitando a mesa a balançando os pés que não alcançavam o chão. – Por que vocês não usam o mesmo baralho? Dividam suas cartas, oras...
            Se K.D. não estivesse usando um capacete de Darth Vader, Thelma teria medo de olhar para ele. Menino Ottis, percebendo a tensão que crescia, decidiu quebrar o gelo:
            - Caras! Vocês ficaram sabendo que o Rodolfo “Recebeu um Hitler”? – Caiu em gargalhada junto a Gregório.
            Thelma e K.D. não entenderam a piada e logo perguntaram do que se tratava “Receber um Hitler”, mas Geléia veio com seus salgados e refrigerantes e logo disse:
            - Acho melhor não falarem disso com uma dama à mesa, certo rapazes? – E partiu em direção à outra mesa, com outro assunto.

            Na mesa seguinte Diego e Ernesto pareciam altamente pensativos olhando para Tremoço fazendo poses. Diego parecia já ter desistido então estava concentrado nos amendoins servidos à sua frente. Foi em meio a mordidas altas que Ernesto arriscou dizer algo:
            -... Só consigo pensar em um avestruz!
            - Avestruz !? Ficou maluco? Este gesto claramente indica um Gorila!
            - Se quisermos que este plano dê certo precisamos melhorar sua interpretação – Ernesto começou a sacar um bloco de notas.
            - Plano? – Perguntou Diego. – Achei que só estivéssemos brincando de mímica...
            Tremoço concordou com a cabeça enquanto Geléia trazia seus respectivos cafés.
            - Um com adoçante, um com cobertura extra e... Sua Soda Italiana, Diego.
            - Obrigado, Geléia – Ele disse com um esboço de sorriso no rosto (Para os que o conheciam, esse era um gesto digno de lágrimas de felicidade).
            - De nada. Ah, e Ernesto... Eu acho que foi um gorila bem convincente.
            Tremoço olhava triunfante para o amigo. Seu bigode, agora com chantilly, não passava respeito algum. E Geléia continuou seu percurso.

            - Mas, cara! Esse assunto é magnífico! Milhares de filmes e livros foram feitos em cima disso... Ou seja, milhões de pessoas pensam nisso! – Dizia a Cineasta levantando as mangas expondo os braços tatuados.
            Depois de um longo olhar com o rosto pesado e maquiado, o Gótico deu sua opinião:
            - É só que... Não vejo motivo para querer viajar no tempo...
            - Como assim!? Seria incrível! Você poderia conhecer o passado e saber sobre o futuro!
            - Mas o passado é uma tristeza que ecoa até hoje nos tornando o que somos... E o futuro é obscuro e terrível quando se trata de nossa natureza, minha cara...
            A Cineasta se massageou entre os olhos depois de tirar os óculos. Os colocou de volta, se debruçou na mesa e disse ao Gótico:
            - ... Eu posso te recomendar um ótimo analista, sabe?
            Quando Geléia chegou, os dois estavam se olhando com um clima tenso.
            - Aqui estão – Disse ele com o ar amigável de sempre – Um capuccino e o vinho de sempre que, incrivelmente, só você pede, meu amigo!
            - Valeu, Geléia! – Disse a Cineasta – Quem sabe com um pouco de bebida meu amigo aqui não se interesse um pouco por viagem no tempo. Geléia o olhou com um sorriso simpático e disse:
            - Assista “Primer”, meu amigo pessimista... Assista “Primer”
            E partiu.
            - “Primer”... Esse sabe o que diz! – a Cineasta sorriu e provou um gole de seu capuccino.

            Era fim de tarde e os clientes eram os costumeiros. Geléia sempre foi eficaz ao entregar os pedidos e recebe-los. Quando o sol estava se pondo e deixando atrás de si as cores mais bonitas no céu, o gerente decidiu ficar à porta do local fumando seu cachimbo para aproveitar o movimento que estagnava. Ao longe, em meio a luz ofuscante do crepúsculo, Geléia podia ver o Artista atravessando a rua e carregando algo.
            - E aí, Geléia! – Ele carregava uma caixa de papelão muito bem cuidada e envolta em papel que parecia turco.
            - Boa tarde, Artiste!
            - Cara, você por acaso conhece um tal de Dióstenes? – Ele perguntava olhando para a encomenda.
            Geléia pensou um pouco e disse:
            - Não me lembro de nenhum. Essa encomenda é para ele?
            - É... Um cara esquisito me entregou ela e disse para eu deixar aqui. Disse que você saberia o que fazer com ela.
            - Deixe no quarto lá nos fundos... Pretendo fazer uma limpeza nele de qualquer maneira.
            O Artista iria até os fundos, resistiria o impulso de verificar dentro da caixa e depois voltaria para sua mesa de costume e pediria por uma porção de pães de queijo e um café com chantilly. Geléia conhecia seus clientes e quando terminou de fumar e já estava voltando para dentro, ele deu de cara com o Artista que logo disse:
            - E que tal alguns daqueles maravilhosos pães de queijo, Geléia?
            Ele respondeu com um sorriso e os dois entraram. Sim, Geléia conhecia seus clientes, afinal eles tornavam este local o que ele era. Seu sonho.

"- Ei! – Interrompeu Thelma que estava fitando a mesa a balançando os pés que não alcançavam o chão. – Por que vocês não usam o mesmo baralho? Dividam suas cartas, oras..."

E eu posso não conhecer todos os meus leitores, mas obrigado a todos por ouvirem estas histórias e tornarem este lugar o que ele é.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Um Presente Muito Especial


O Café do Geléia também servia almoço, não todo dia, é claro, mas apenas em ocasiões especiais. Aquele era um típico dia 29, e como manda a antiga tradição, era data de comer nhoque. Ou gnocchi, como preferir.
            Todos os habituais clientes estavam presentes, a Cineasta, o Conde, o Gótico, dentre outros, aguardando ansiosamente a chegada da massa ao bufê. O Menino Ottis já havia amarrado um pano ao pescoço, para não sujar a camiseta. A refeição foi servida e estava realmente deliciosa, encheu os clientes de satisfação (menos o Gótico, que gemia a cada garfada), afinal, nada como ser bem recebido em um lugar tão diferente de onde você cresceu. Obviamente, nenhum deles era daquele lugar. O Café era notório por ser um refúgio para almas errantes, e muitas vezes, as pessoas que se conheceram e se identificaram em uma noite jamais voltariam a se ver. Nesse clima de aconchego e distância, enquanto todos conversavam, ouviu-se um lamento abafado.
            Não é incomum que alguns se emocionem naquele ambiente, mas não em um dia como esse, por isso, todos se entreolharam buscando encontrar a alma que sofria. No canto do Café, estava o Caixeiro, fitando suas botas com a cabeça baixa. Ao ser questionado sobre o motivo de sua lamentação, o Caixeiro relembrou, com um sorriso nostálgico, as épocas em que rodava as estradas de ferro vendendo mercadorias exóticas. Contou sobre o café de sua cidade natal, o Madigans, e das lindas mulheres que lá freqüentavam. Contou também sobre a infância de outrora e as amizades que a construíram com as mãos inocentes e aventurescas de filhos de artesãos e mercadores.
            A Cineasta jurou entender o que o Caixeiro sentia, mas o velho homem protestou dizendo que o que lhe afligia era diferente, ele não se encaixava mais no mundo. Suas botas artesanais, de couro claro e bem lustradas, já não eram mais objeto de inveja dos outros homens. Em que outro lugar ele poderia recomeçar, a quantos quilômetros dali estaria outra pessoa que poderia entendê-lo? Ninguém sabia o que dizer para o Caixeiro.
            Contou que viajava de trem de vez em quando, tentando se sentir vivo e ativo outra vez; disse, com risadas, que seu momento de maior glória na semana era tomar a insulina para diabetes. Em meio a tantas histórias de uma alma que já não era mais a mesma ele ganhou amigos que durariam uma noite, mas estariam sempre em uma memória tão boa quanto as velhas botas artesanais que tanto caminharam.
Aos poucos, o salão foi se esvaziando, até que só restava o Geléia limpando as mesas e observando as próprias memórias que decoravam a parede. Estranhamente, ninguém viu o velho homem sair.

            Algum tem depois o Menino Ottis relembrou o episódio:
            - O que aconteceu com o Caixeiro, afinal?
            - Não sei ao certo, mas outro dia um homem a cavalo me deixou um pacote...
            - E o que tinha nele?
            - Um presente muito especial... – disse Geléia, olhando para seus pés.

"Suas botas artesanais, de couro claro e bem lustradas, já não eram mais objeto de inveja dos outros homens."

Este texto é um presente muito especial de Walter Neto. Obrigado.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Infância

           Nada como um dia quente de verão. Para certas pessoas o calor é algo irritante só de se pensar, para outras é algo agradável que elas esperam sentir todos os dias. Para uma criança o tempo realmente não importa. Nada é motivo para deixar de aproveitar o dia.
            Mas o dia estava agradável. Um dia ensolarado, com uma brisa refrescante e nenhuma nuvem no céu fortemente azulado. Aqueles que prestassem atenção veriam crianças correndo para lá e para cá com seus brinquedos e às vezes até seus animais de estimação. Mas um grupo se destacava do resto. Se você prestasse atenção veria o Menino Ottis escondido no topo de uma arvore baixa usando um cocar e levando consigo uma espingarda de brinquedo que fazia um barulho de quebrada. Qualquer um diria que ele estava brincando de índio... Mas os adultos são muito sem graça. Ottis sabia que não estava em um parque, ele sabia também que tinha uma missão.
            Do topo da árvore ele podia ver toda a vastidão da Grande Planície. Ele estava fazendo seu turno de guarda para impedir que mais servos da Bruxa viessem até o forte. Seus amigos Gregório, Thelma e K.D. (cujo nome verdadeiro era desconhecido) estavam no forte recuperando forças e traçando novos planos para encarar os servos da Bruxa. Eles eram os últimos sobreviventes da Grande Planície. Todos os outros países já tinham sido dominados e crianças agora eram adultos sem imaginação ou cachorros com empregos e gravatas e o destino do mundo estava agora na mão deste pequeno grupo.
            A vigia estava calma. Calma demais. O fuzil laser de anti-matéria gravitacional deixava Ottis mais confiante, mas o medo nunca realmente saíra de seu coração. A Bruxa era um adversário formidável e seu exército de robôs era quase invulnerável. O vento soprando trazia sons com os quais Ottis já estava acostumado e, embora não fosse admitir se o perguntassem, ele estava quase caindo no sono com o tédio do posto que o colocaram. Mas o tédio logo foi quebrado. O vento parou e a terra tremeu. Ottis logo se levantou, segurou o fuzil com força e logo soprou a trombeta de alerta que foi escutada no forte.
            - Robôs? – Perguntou Thelma que encantava pedras com força explosiva.
            - Ottis nunca soaria a trombeta em vão! – Exclamou Gregório já se levantando e levando consigo seu Bastão Ancestral (feito com madeira da Árvore da Vida).
            Enquanto todos se levantavam, K.D. ficou para trás distraído com os dados que analisava em seu computador de bolso e só percebeu que estava ficando para trás depois de uma pedra atingir seu capacete cibernético. Depois do baque olhou confuso para os lados e viu Thelma parada na porta.
            - Pegue seu estilingue e venha! É hora da grande luta! – Ela correu para fora.
            - Sempre apressados! Eu estava vendo dados de luta em meu computador de batalha! – Gritou enquanto corria atrás do grupo.
            Quando todos chegaram até a arvore de vigia a terra tremia cada vez mais.
            - Cuidado pessoal! Eles trouxeram um Robô M.O.R.T.A.L. dessa vez!!! – Ottis exclamou enquanto olhava o horizonte.
            Todos olharam perplexos enquanto a multidão de ferro e eletricidade se movia em direção a eles acompanhada pelo monte assustador de metal.
            - Eles querem mesmo acabar com este território não é mesmo? – perguntou Thelma sorrindo diante do desafio.
            - O que é um robô M.O.R.T.A.L.? – Perguntou Gregório.
            - Máquina Opressora, Retalhadora e Tática de Assalto Local. É um dos robôs mais fortes da Bruxa! – Disse K.D. analisando seus dados de batalha.
            - Sem tempo para conversas pessoal! Aí vem eles! – Ottis armou seu fuzil.
            Disparos elétricos vieram na direção dos garotos. O chão era acertado com uma força absurda levantando terra e poeira no campo de batalha enquanto relâmpagos eram revidados com pedras explosivas e tiros anti-matéria. O barulho de metal retorcendo e se partindo era alto nas planícies e as crianças estavam fazendo um excelente trabalho. Mas o coração de todos foi partido ao som de uma risada estridente. Todos olharam para cima alarmados e Gregório exclamou:
            - Essa não! É a Bruxa!!! – E saltou para trás de uma moita
            - Bruxa!? Que história é essa Gregório? – Perguntou a mulher horrenda que parava entre eles e a horda de robôs.
            - Ah, mãe! Já é hora de ir embora? – Perguntou Thelma soltando sua capa de invisibilidade.
            - Sim, querida. Vamos encontrar seu pai para jantarmos. – A mãe de Thelma tentava limpar a poeira do vestido da menina.
            - Droga... É, meninos... Acho que os robôs terão que se ver com a gente na próxima...
            - Tudo bem, Thelma. – Disse Gregório enquanto acenava para ela.
            - É! Eles não terão chance da próxima vez! – Disse K.D. já sentando no chão a puxando seu baralho de Magic do bolso.
            - Então até outro dia, pessoal! – Ela correu para alcançar a mãe.
           
Ottis desceu da árvore, largou sua espingardinha, soltou um suspiro e disse:
            - Ainda bem que ela se foi. Mais alguns segundos e aquela garota iria nos trair. Certeza!
            Andou até os amigos sentados na grama e se deitou. K.D e Gregório imitaram o gesto.
            - Foi uma boa luta. – Disse K.D. soando feliz.
            - É... Sabe pessoal. Eu espero que isso não acabe nunca!
            E lá ficaram os garotos. Tramando planos e contando histórias e aproveitando a vida que sua idade lhes proporcionava. Afinal, eles tinham todo o tempo do mundo, por mais curto que ele fosse.

Mas o tédio logo foi quebrado. O vento parou e a terra tremeu.