O "Café do Geléia", fundado por Giovanni Di PaZZo, começou como um pequeno café na esquina da rua Orlontis com a rua Coronel Verde. Servindo apenas poucas variações do simples café o lugar foi ganhando fama devido ao seu ambiente altamente aconchegante contendo fotos de viagens feitas pelo "Geléia" (apelido carinhoso de Giovanni), relíquias e artefatos adquiridos em suas diversas aventuras pelo mundo em busca do melhor café que existia. Certo ano, Giovanni conseguiu por métodos misteriosos o melhor café que os que ali passavam já haviam provado e começou a plantá-lo e serví-lo em seu pouco famoso "Café do Geléia". O lugar ganhou fama pelo seu café fabuloso e pelo ambiente que sugeria um conto de histórias entre amigos. Agora vivemos estas histórias... Bem vindos ao "Café do Geléia".

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Velho


            Vazio. Era como estava o Café naquela noite. As mesas, cadeiras, xícaras, bancos, todos estavam vazios. Qualquer um que passasse por lá poderia quase esperar um bredo-do-deserto passando pelo ambiente como naquelas cenas de filmes de faroeste durante um duelo mortal. Mas, como todos sabem, nunca algo está completamente vazio e, sendo um estabelecimento publico e de boa reputação, o café estava habitado somente por Geléia, Helen e o Velho.
            Geléia e Helen estavam apoiados no balcão. Helen tomava o seu café de sempre enquanto Geléia mexia para cima e para baixo o sachê que deixaria sua água quente com gosto de mel fazendo assim o famoso chá. Seus olhos fitavam o nada e ele estava com uma cara que expressava a mesma coisa. A televisão estava ligada, mas estava no mudo enquanto passavam desenhos animados que não cumpriam o papel de divertir o publico. A jukebox estava em um volume bem baixo, quase não atingindo os ouvidos de ninguém. Helen olhava o próprio reflexo em seu café e batia as unhas de leve na xícara que exalava um vapor leve que estava, lentamente, se esvaindo.
            A mulher começou a olhar para os lados e, depois de dar um gole leve na bebida, disse:
            - É...
            Geléia, ainda olhando para o nada, respondeu.
            - É... – E suspirou.
            E ali ficaram, naquele silêncio da falta de assunto por mais ou menos dois minutos. Helen então quase teve uma epifania. Percebeu que, em todos os anos que conhece o Geléia como gerente de café, ela nunca soube a origem do Velho. Sua mente então foi atacada por dúvidas. Quem era o Velho? O que ele fazia sempre por lá? Por que ele sempre tinha o sorriso estampado no rosto enrugado? E como certas pessoas se sentiam melhor depois de alguma conversa filosófica com ele?
            - Geléia? – Arriscou por fim.
            - Hm? – Seus olhos arregalaram, mas ainda fitando o nada, de um modo quase catatônico.
            - Qual a história do velho?
            Geléia acordou de seu torpor e olhou para o senhor. Ele estava sentado em seu canto, mãos na velha bengala artesanal e olhava para a porta com um sorriso. O gerente não conseguiu não sorrir ao olhá-lo. O Velho tinha esta estranha aura, algo quase místico, que o cercava. Todos o cumprimentavam dizendo “bom dia” ou “boa noite”, dependia do horário. Ele era quase que como um enfeite do lugar e todos concordavam que ele combinava perfeitamente com o conjunto.
            - Sabe que... eu sinceramente não sei? – Disse Geléia com um ar confuso enquanto levantava uma única sobrancelha. – Sei que já fizeram histórias sobre ele aqui... Alguns dizem que ele é o ultimo bom ser humano da terra. Alguns dizem que ele é imortal. Já ouvi gente dizendo que ele é Deus em pessoa... Eu acredito que ele seja um ótimo cliente. – Geléia parou e pensou um pouco olhando para os cantos do estabelecimento – E também é um bom enfeite...
            - Não chame o Velho de enfeite! – As palavras foram seguidas de um tapa no braço do gerente - Achei que você conhecesse todos os seus clientes... – Helen bebeu mais um pouco do café e olhou para o velho que acenou jovialmente para ela.
            - Ei, ele já estava aqui quando comprei o lugar! E ele sempre fica quando vou embora. Mas acredito que o mais importante seja o fato de que, quando eu o cumprimento com um aperto de mão, sempre acho dinheiro no meu bolso...
            E ali ficaram os dois amigos, conversando sobre os mistérios do “Negro Místico” local enquanto ele sorria para o nada, como se a vida fosse algo que ele conhece de trás para frente.

            Dado algum tempo, Geléia começou a fechar o café e como de costume, o velho ainda estava lá, dessa vez com Viras ao seu lado. Momentos depois, o gerente foi ao banheiro antes de começar a apagar as ultimas luzes. Enquanto estava lá, o Velho se levantou sorrateiramente como um verdadeiro bandido e escorregou um pouco de dinheiro para dentro do bolso do casaco do Geléia, que sempre ficava perto da porta. Viras o olhou virando a cara e com as orelhas para frente.
            - Deixe-o continuar acreditando na magia, garoto.
            E sorriu enquanto se sentava de novo.

"Qual a história do velho?"

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fredo


            Todos nós gostaríamos que nossa vida fosse um filme. Nos filmes tem todo um desenvolvimento empolgante na história, onde os heróis, que seríamos nós, somos introduzidos ao público, mostramos nossa vida, passamos por dificuldades e tudo fica lindo no final. Se tudo fosse um filme os dias ficariam lindos quando algo lindo fosse acontecer, choveria quando alguém morresse e nevaria naquele momento de reconciliação com a pessoa que você ainda ama. Tudo com direito a uma trilha sonora. Infelizmente na vida real só podemos colocar os fones de ouvido e achar que aquilo é uma trilha sonora para um dia como qualquer outro em que está ensolarado mesmo estando tudo um saco.  Estranhamente, as vezes acontece de algum “poder maior” ajudar a tornar tudo mais interessante. Por bem ou por mal.
            Era uma tarde de poker e de leve chuvisco no Café. O Artista, a Cineasta, Ernesto, Tremoço, Diego, o Conde e o Gótico estavam presentes em uma mesa redonda com fichas e cartas dispostas por toda a tapeçaria verde que forrava a velha mesa de madeira. O barulho das fichas se misturava ao som de copos e xicaras em pires. A conversa do resto da clientela era um som suave ao fundo e não desconcentrava os jogadores que faziam suas maiores caretas para não entregar seu jogo. A Cineasta estava ganhando. Os outros estavam dizendo que ela estava roubando.
            - São os ocúlos! – Dizia ela enquanto se apossava da pilha de fichas jogadas sobre a mesa.
            A chuva apertou lá fora e, não mais do que de repente, a porta do café se abriu levemente, trazendo consigo uma brisa fria e alguns respingos de água. Helen parou ao dar um passo para dentro do café e deixar seu guarda-chuva preto no porta guarda-chuvas. Todos mudaram os semblantes ao olhá-la toda vestida de preto e com um ar tristonho em seu rosto geralmente jovial. Ela caminhou a passos curtos em direção ao balcão, passando pela mesa de jogo. Todos, com suas feições preocupadas, pensaram em perguntar algo mas nada fizeram. Porém, enquanto o Gótico sorria tortamente, Menino Ottis perguntou:
            - Qual o motivo dessa cara, Helen?
            A mulher o olhou e sorriu com um esforço. Depois de dar um tapinha no ombro do garoto, virou seu rosto para Geléia que estava no balcão e disse com lágrimas nos olhos:
            - Fredo faleceu...
            - O cara de “O Poderoso Chefão”? – Disse o Artista, que se amaldiçoou depois de ter feito uma piada naquele momento. Ninguém riu. Helen não percebeu.
            Geléia se apressou para perto da amiga e a abraçou.
            - Fredo era um amigo nosso... – Disse finalmente após um suspiro. Viras, o cão de guarda oficial do Café, entrou e se aproximou de seu dono, sentando ao seu lado – Tudo bem, Helen, querida. Lembra-se de como Fredo era alegre? Ele não gostaria de nos ver assim... Temos que honrá-lo contando histórias a seu respeito e sorrindo ao lembrar dele. Lembro-me de uma vez...
            E Geléia começou a contar aos outros algumas histórias de seu amigo agora falecido. Helen conseguiu esboçar alguns sorrisos depois de histórias e da companhia de Viras, mas dado algum tempo ela disse:
            - Obrigado, Geléia. Agora... que tal um pouco daquele seu delicioso café para aquecer esta alma cansada? – E, como nos filmes, a chuva começava a parar e dar espaço para um sol poente que derramava sua luz nas nuvens carregadas, e trazia o tão aquecido tom laranja em todo o mundo banhado por sua luz. A cena cinematográfica foi suficientemente forte para arrancar uma lágrima do Conde.
           
            Geléia foi ao balcão com sua amiga e a serviu de seu café costumeiro. Ela o bebericava enquanto fazia carinho no cão que não deixou seu lado.
            - Tudo bem com você, Helen? Quer conversar?
            Ela depositou a xicara no pires e respondeu com um sorriso:
            - Obrigado, Geléia, mas prefiro ficar com o Viras por enquanto. Obrigado. Eu não me lembrava que você tinha tanta vivencia com o Fredo...
            O Gerente sorriu e se dirigiu a mesa de poker. Todos o olharam e começaram a dar os pêsames pela perda do amigo. O Artista disse:
            - Vocês deviam ser bem próximos... Sinto muito.
            Geléia o olhou e respondeu com o riso paterno de sempre:
            - Você acredita se eu disser que nem sabia de quem ela estava falando?

"Fredo faleceu..."

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Crenças


            Horário de almoço. O café estava sempre vazio nesta hora, afinal quem preferiria comer alguns salgadinhos e tomar um café deixando de lado a feijoada que era servida, todas as quartas, em estabelecimentos ao redor? Estavam no café apenas uns poucos clientes costumeiros e um ou outro homem de terno, daqueles que sempre diz que está sem tempo.
            Menino Ottis estava, como em poucas vezes, sentado na mesma mesa que o Artista. O jovem mantinha os dedos entre os olhos, em movimento de massagem, como se tentasse espremer alguma ideia de sua cabeça turbulenta. Outros achariam que tudo que ele estava tentando fazer era abstrair o barulho que Menino Ottis fazia com o brinquedo que havia escolhido para trazer hoje ao Café.
            - Você gostou mesmo desse tanque de guerra, hein? – Perguntou o Artista tentando soar o mais carismático possível.
            Menino Ottis olhou para o Artista com um grande sorriso e disse:
            - É um APC. Veículo de controle urbano! Tem até uma metralhadora, olha! – Fez sons de tiro enquanto mirava a arma para o Artista. – E o que torna ele melhor é que ganhei do Papai Noel no ano passado!
            - Parece bem legal mesmo! – Disse o Artista tentando voltar a atenção para o seu caderno.
            O Gótico passava ao lado com o olhar triste de sempre, uma mão parecendo uma garra e a outra carregando um copo comprido com um liquido verde dentro quando disse ao menino que brincava alegre:
            - O Papai Noel não existe, sabia?
            Um copo fez-se ouvir quebrando atrás do balcão. O silêncio se tornara uma entidade plausível e palpável. O Artista tirou sua atenção do caderno se voltando com olhos vítreos para o Gótico. A Cineasta limpava uma lagrima de seu rosto e tentava retomar o folego enquanto se aproximava da mesa para se sentar. Ottis era como um monólito. Com olhos fixados no nada, sua alma parecia um ovo espatifado no chão da cozinha. Enquanto o garoto andava em passos largos e pesados na direção do balcão, o Artista e a Cineasta confrontavam o Gótico.
            - Por que falou isso, cara? – Perguntava a Cineasta, ainda incrédula.
            O Gótico a fitou com seu clássico olhar pesado de que nada valia a pena.
            - Por que é a verdade... – Bebericou um pouco de seu absinto.
            - Ah, qual é! Todos nós aprendemos isso um dia, mas não precisa acabar do nada com as crenças do garoto! – Ela coloca de volta seus óculos.
            O Gótico estalava os lábios em gesto de degustação. Carregava o copo rente ao corpo como um faraó faria com seu cetro. Sua figura estática parecia um mau agouro ficando em pé ao lado da mesa onde os dois jovens se sentavam.
            - Mas se ele vai aprender isso uma hora ou outra, que diferença faz se aprender agora?
            A Cineasta franziu a testa.
            - A diferença é que ele vai achar a vida muito mais divertida e mágica enquanto ele acreditar no Bom Velhinho. – Disse o Artista tomando lado na discussão.
            O Gótico nem se deu ao trabalho de responder. Sabia que seus pensamentos, certos em sua cabeça, eram mal vistos por todos ali dentro.
            - Você com certeza já acreditou em algo, homem! – A Cineasta quase gritou ao saltar da cadeira para segurar a gola do Gótico.
            O homem então se lembrou. Se lembrou de quando era garoto em sua casa dilapidada que ele tanto adorava. Se lembrou do medo que ele sentia ao ouvir falar do Vampiro no sótão e nos lobisomens que rondavam a casa de noite. Lembrou-se do como a vida era emocionante naquela época em que tudo dava medo e era uma aventura correr para o sótão para buscar um brinquedo antigo ou vasculhar a história da família tão desorganizada.
            Um vento gélido soprou para dentro do estabelecimento e os óculos da Cineasta trincaram. Ela olhava para o Gótico e jurava ter visto uma lagrima de gelo caindo de seu rosto, mas não sabia se podia confirmar o ocorrido. Todos estavam em silêncio mais uma vez.
            - Acho que... Tem razão. A vida era mais mágica quando o místico ainda era real... – Disse o Gótico se dirigindo a um canto escuro que surgira de repente.
            A Cineasta e o Artista se entreolharam.
            - Na boa? Esse cara me faz questionar se não acreditamos mesmo nesse tipo de coisa... - Concluiu a jovem.
            E a contradição se fez presente em todas as mentes.

            Enquanto isso, Menino Ottis se sentava no balcão, emburrado e com seu brinquedo a sua frente. Mexeu ele para frente e para trás em desanimo enquanto Geléia limpava o balcão com um sorriso paterno em seu rosto. O sorriso foi o suficiente para fazer Ottis tomar coragem e perguntar:
            - Geléia... O Papai Noel não existe?
            O gerente o olhou, fez um carinho na cabeça do garoto e disse por fim:
            - Se ele não existisse... Quem te daria esse brinquedo que você tanto gosta?

"O Papai Noel não existe, sabia?"

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Super Poderes


Quadrinhos. Todos já leram um na vida. Seja esse quadrinho algo bobo sobre uma turminha besta ou seja esse quadrinho sobre super heróis salvando mundos inteiros ou seja ele uma, em termos de sabichão, graphic novel.  Todos tiveram um herói predileto, aquele que, mesmo você não tendo dinheiro suficiente na mesada para comprar gibis do mesmo, você sabia tudo que estava ocorrendo na vida do campeão.
              Naquela tarde de verão, as crianças estavam no café com suas coleções de gibis dispostas sobre a mesa. Gregório estava lendo uma edição de seu herói favorito, o “Alerta Negro”. Nesta edição ele usava suas artimanhas para impedir o famoso mafioso, Dr. Jurademorte. Menino Ottis adorava os clássicos e variava entre revistinhas dos maiores heróis como “Almirante Justiça” e “Leopardo Vermelho” em edições diversas com os maiores vilões. Thelma era fã de uma leitura mais descontraída e por isso estava lendo a famosa “Turma do Pestana”, e pra variar, o Pestana estava falhando miseravelmente em ser o dono da escola. K.D. lia uma cópia de “Orion: Campeão do Futuro”, um quadrinho que ele mesmo escreveu e ilustrou, demonstrando assim seu apego pela ficção científica.
Em meio a tantos super heróis, Thelma decidiu lançar um tema entre seus amigos.
              - Se vocês pudessem escolher um super-poder, qual escolheriam? – Perguntou então.
K.D. a olhou com um sorriso enorme que se fazia visível através de seu capacete de Juiz Dredd.
              - Eu dominaria a força e me tornaria um excelente mestre Jedi! - K.D. respondeu em alto e bom som.
              - O melhor que você consegue pensar é um pouco de telecinesia? – Perguntou Gregório.
- Telecinesia e raios!
- Só para o lado negro da força!
- Eu posso ir para lá quando quiser, valeu? – K.D. apontava para Gregório ameaçadoramente.
Sempre tentando quebrar o gelo e a tensão entre os amigos, Menino Ottis se fez presente:
              - Eu teria visão de raio-x!
              A reação de todas as crianças foi a mesma: cair na gargalhada. Ottis estava desacreditado com todos e seu rosto só mostrava um desconserto absoluto. Todos já choravam de tanto rir quando Thelma perguntou:
              - Mas por que diabos você quer visão de raio-x, Ottis? Com tantos poderes legais… - não conseguiu completar a frase e caiu na gargalhada de novo.
              - É um poder superlegal, tá?! - gritou nervoso.
              Gregório, enxugando uma lágrima que escorria de tanto rir, diz:
              - Super-força, voar, soltar raios, respirar embaixo d'água… até mesmo a habilidade de saber ler em braile é melhor que isso, Ottis… Imagine a situação: um monstro, senhor Godzila, ataca a cidade. O que você faria com sua visão de raio-x? Descobriria se o estômago dele está muito vazio e calcularia quantos carros ele ainda conseguiria comer?
              Todos caíram na gargalhada mais uma vez e Ottis afundava em seu assento. Em sua cabeça, as gargalhadas levaram pelo menos dois anos para pararem e quando todos estavam em silêncio e voltando a suas respectivas leituras, K.D. disse vitorioso para Gregório:
- E que fique claro que meu poder é plausível depois de “A Ameaça Fantasma”.

              Dado um tempo, Geléia veio ver se as crianças precisavam de algo e o primeiro a dizer algo foi Ottis, que bradou:
              - Geléia, me traga uma Coca-Cola bem gelada que vou encher a cara… esses paspalhos não sabem o que é superpoder de verdade…
              Todos começaram a discutir de novo até que Geléia disse após um pigarro:
              - Não liga pra eles… quando ficarem mais velhos todos vão ter inveja da sua visão de raio-x.
              A empolgação com a suposta vitória era quase palpável no Menino Ottis naquele momento.

"A reação de todas as crianças foi a mesma: cair na gargalhada."
Texto de Caio Stachi Boracini (DeviantArt de Caio)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Simples


            Era noite. Naquele momento, o café estava quase vazio. O Gótico estava em um canto encostado na janela e o Artista estava no outro canto do estabelecimento, coberto com a própria jaqueta e roncando sonoramente. Geléia estava vendo algum seriado, sem muito interesse, em um volume baixo para não atrapalhar os dois únicos clientes daquela hora. Passado um tempo, o gerente decidiu ir ao Jukebox.
            Ele olhava para os clássicos que ali viviam a tocar. O bom e velho jazz estava sempre por lá encantando sua visão no painel. Apertou uma combinação qualquer e a música começou com seus saxofones e o piano. O piano sempre foi o instrumento que fazia aquele homem gordo sorrir e parar por alguns minutos em sua poltrona apenas ouvindo um pouco da boa música enquanto o mundo rodava sem ele perceber. Sem ele querer perceber, pelo menos. Em meio a um solo suave de sax Geléia ouviu o sino da porta tocando e logo olhou para trás, se deparando com um rapaz jovem e agasalhado entrando com um rosto pesado em seu estabelecimento.
            Geléia deixou a música tocando e se dirigiu para trás do balcão onde o homem estava indo se sentar. A música era leve como os movimentos do rapaz. Carregando uma maleta em uma das mãos, ele retirou seu cachecol e o colocou sobre o balcão, no banquinho ao lado deixou seu casaco e maleta, revelando uma blusa chique com gola role.
            - Boa noite, senhor. Posso serví-lo esta noite?
            O rapaz passou a mão na blusa para retirar alguns fiapos, depois olhou para o gerente e, sorrindo, respondeu:
            - Eu gostaria de um copo de seu café gelado, por favor.
            - É pra já. – Respondeu o calmo gerente.
            Os intrumentos tocando faziam um excelente ambiente. De alguma maneira, o saxofone e o baixo relaxante pareciam dar um tom sépia ao local para onde o rapaz olhava. Um sorriso inconsciente lhe veio ao rosto ao ver que o jukebox estava ligado em uma música tão calma e ao mesmo tempo a TV revelava um noticiário que, muito provavelmente, mostrava uma desgraça ou outra.
            - É um ótimo lugar que tem aqui, senhor. – Disse finalmente.
            - Ora, obrigado. Fico feliz que os clientes gostem. É o que tenho de mais valioso em minha vida.
            O rapaz continuava a olhar em volta e o piano parecia que queria criar a trilha sonora para cada foto e decoração que enfeitava aquele local aconchegante. Geléia chegou com o pedido do moço que logo se voltou para o balcão, agradecendo. Dado um tempo e algumas notas, saltou uma pergunta:
            - É sempre assim parado por aqui?
            - Nem sempre. Hoje parece ser exceção. Mas gosto de dias assim, sabe? Parece que o mundo não existe, por mais que seja por alguns minutos de uma musica.
            O homem concordou com a cabeça e deu uma risada.
            - São bons os dias assim. - Deu um gole em seu café. – Sabe... Eu não entendo como pudemos tornar o mundo um local tão agitado. A apenas uma geração atrás tudo parecia tão mais calmo... E hoje em dia todos dizem não ter tempo para nada!
            - Sim, nunca entendi isso também. É por isso que mantenho este lugar como ele é. Simples.
            - Simples. Acho que esta é uma palavra não muito aceita nos vocabulários modernos. – Bebeu mais café. – Nós trabalhamos até nos exaurir. Mal temos tempo para nossas mulheres. Mal temos tempo para filhos por que tudo que queremos é fazer de tudo para não perder nada de nossas próprias vidas com o intuito de ganhar mais dinheiro para ter mais coisas que nunca vamos aproveitar...
            O café era aconchegante e o ambiente fez o homem fechar os olhos por um segundo. Estava falando mais do que o normal. Havia trabalhado até tarde a semana inteira e não teve tempo para coisa alguma e agora parecia que finalmente estava aproveitando o que mais gostava de fazer na vida. Ouvir um bom som e parar por alguns segundos.
            - Por isso estão todos estressados e desrespeitosos ultimamente... – Disse por fim.

            Geléia olhou para o homem com um sorriso e disse:
            - Pois é. Parece que as pessoas esqueceram que tudo o que você precisa é de um bom café em uma poltrona ao som de jazz. O mundo, às vezes, simplesmente não precisa existir.

"O café era aconchegante e o ambiente fez o homem fechar os olhos por um segundo."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Dia de Cão

    Era um dia como qualquer outro. O sol nasceu vindo do leste trazendo consigo o calor de um dia irritante. O mormaço na calçada era perceptível ao olho na distância e perceptível à pele o tempo todo. O sol ascendia em seu curso rotineiro de todos os dias trazendo uma luz altamente radiante, quase cegante, tornando o céu azul limpo a única coisa bonita para se ver naquela manhã sem graça.
    O cachorro se levantou. Tinha passado a noite ao lado de um mendigo, mas não tão perto a ponto de pegar os germes que o humano continha. Após se levantar foi beber um pouco de água da sarjeta. A chuva do dia anterior só tornava o dia mais quente e chato agora e com toda aquela água evaporando, o ar fica simplesmente... Estranho. O cachorro arfava e sua língua balançava para lá e para cá enquanto ele saía pelos becos e ruelas da cidade buscando seus amigos de noites passadas. Todos estavam nos lugares costumeiros, alguns dormindo em soleiras esquecidas, outros remexendo latões de lixo e outros latiam sem propósito para algumas pessoas na rua. Ele soltou seu latido de sempre para cada um deles e, com orelhas eretas ou para frente, eles o seguiam como um líder, como se ele soubesse exatamente onde encontrar a comida que todos agora queriam.
    A gangue correu seguindo o líder que os levou até um restaurante próximo onde todos se debruçaram às janelas para olhar dentro. Os humanos, com suas patas sujas, comiam bifes suculentos que pingavam sangue no caminho do prato à boca. O macarrão era enrolado no garfo em um padrão quase que hipnótico e a água sendo derramada em copos suados era uma visão tão estonteante que os cães ali ficaram apenas pensando. A felicidade não durou muito, pois logo veio um homem com roupas bonitas gesticulando e gritando “Saiam!” e “Xô!” e os que não saíram da janela na hora receberam um banho gelado de mangueira. O cão líder estava sentado coçando pulgas e os outros se juntaram a ele fazendo um círculo de coceira. Depois de um pedido inicial por comida não muito bem sucedido, a única coisa que realmente podia trazer certa felicidade a eles agora era aquela coçada gostosa atrás da orelha. Ficaram sentados até o menor deles acabar e logo partiram mais uma vez.
    Andar pela cidade movimentada era bom e ruim ao mesmo tempo. O bom é que só em um lugar com tanta gente era possível se tornar invisível e o ruim é que, por ser invisível, ninguém te dava um carinho. Vez ou outra um mendigo, ser quase tão invisível quanto os cães, lhes fazia um carinho e balbuciava alguma coisa nada compreensível. Um mendigo em especial foi mais atencioso. Depois de fazer carinho e um deles, ele ofereceu o pouco de pão que ele tinha e o cachorro aceitaria se o líder não tivesse lhe lançado um olhar rígido que dizia “Ele precisa disso mais do que nós...”. E eles saíram correndo rua acima passando ao lado de uma igreja que foi usada coletivamente como banheiro e algum morador de rua meio maluco começou a rir olhando para o céu e xingando algo lá em cima. Pensaram que ele devia estar falando com as pombas, então seguiram para o destino que o líder estabelecera.
    A padaria. Somente lá eles encontrariam o grande monumento, o objeto de adoração cega e pináculo do desejo de todos de sua espécie. Era um artefato que inspirava criatividade, felicidade, desejo e ao mesmo tempo curiosidade, desespero e tristeza. Era ele o objetivo daquele momento. Hoje eles conseguiriam conquistar uma das aves mortas assadas que rodavam em seu próprio eixo como presente do grande artefato humano. Ficaram parados durante muito tempo até um dos guardas do monumento se aproximar deles com uma vassoura em mãos. Ele brandia a arma gritando e os expulsando daquele local sagrado. Muitos correram, mas o líder não desistiu e ficou driblando seu oponente. A vassoura descia com velocidade e ele saltava para o lado e depois abaixava quando o objeto zunia acima de suas orelhas pontudas. Mas reforços chegaram e o líder ganhou nada mais do que um banho de água gelada.
    Levando seu time em derrota para qualquer lado, o líder desacreditado não conseguia pensar em nada para motivar seus homens. O ronco de seu estômago era maior do que qualquer pensamento. Foi quando ele se deparou com um estabelecimento que nunca tinha visto antes. Um local bonito na esquina da rua Orlontis com a Coronel Verde, um local humildemente grande e bem decorado com alguns clientes diferentes lá dentro. Quando os cães se apoiaram nas vidraças para olhar dentro, um homem gordo de avental estava saindo com um saco de lixo e quando os viu falou com um sorriso simpático:
    - Olá, garoto!
    A saudação foi respondida com os cachorros se aproximando, mas com o líder à frente. Alguns se sentaram na frente do homem e alguns ainda se mantinham em defesa, com medo de mais água gelada. Mas o homem fez um carinho na cabeça do líder e disse:
    - Vocês parecem estar com fome... Hm, esperem um pouco.
    E o homem sumiu para dentro do estabelecimento.

    Dado algum tempo, ele voltou com algumas tigelas com sobras de comida dentro. Os cães se empanturraram! Ele ficou observando-os durante um tempo e olhou quando alguns começaram a correr para longe do grupo, agora que estavam abastecidos. O homem viu que os cachorros estavam indo embora e decidiu fazer o mesmo, entrando no café, mas olhou para trás e viu que o líder do grupo estava sentado à porta. Eles se olharam por um tempo e o cachorro virava a cabeça de lado ao fitar o homem.
    - Imagino que não tenha para onde ir, senhor vira-latas...
    O cachorro meio que concordou abaixando a cabeça e se deitando no chão. O homem sorriu simpaticamente mais uma vez, trazendo certo conforto para o pobre animal.
    - Se quiser... É bem vindo aqui. Afinal... Muitos ali dentro não tem muita idéia de onde estão indo. Acho que ninguém faz idéia disso na verdade.
    O cachorro o olhou confuso.
    - Acho que vou te chamar de Viras. Parece-me um bom nome...
    Um nome. Naquele momento, parecia tudo que ele precisava agora que tinha um lar.

"Todos estavam nos lugares costumeiros, alguns dormindo em soleiras esquecidas, outros remexendo latões de lixo e outros latiam sem propósito para algumas pessoas na rua."

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ano Novo


            Seguinte ao natal chegamos em outra época marcante e esta época é o fim do ano. Aproveitando a abundância de comida do natal esta é uma comemoração feita com mais refeições deliciosas e bebidas, às vezes mais alcoólicas que no natal. É a época em que os homens se empanturram e as mulheres também, mas isso sempre as faz se arrependerem no início do ano ao fazerem “metas”.
            O que é um conceito interessante da comemoração. As pessoas consideram que com a virada do ano algo inimaginável, algo mágico, algo astrológico irá ocorrer e fará com que elas sejam melhores pessoas. Estranhamente “melhores pessoas”, para elas, se resume em pessoas ricas, magras e com carros novos. Para dar sorte no alcance destas incríveis ditas “metas” as pessoas passam o ano vestindo branco para representar prosperidade, comem lentilha para dar sorte, guardam caroços de uvas e abraçam uma pessoa do sexo oposto para ter um bom ano. Mas tirando tudo isso é basicamente um prolongamento do natal e mais um motivo para sair mais cedo do trabalho e passar o tempo com os amigos.
            Havia um lugar que tinha feito uma comemoração após o horário curto de trabalho. Mas agora já passara do meio dia do dia 1º e todos pareciam nocauteados em meio a mesas viradas, uma TV de ponta-cabeça, latas, copos e bebidas espalhadas no chão e um cheiro de queimado que pairava como uma nuvem de azar pelo local. Um celular tocou e reclamações em uníssono voaram pelo ar, tornando-as impossíveis de serem entendidas. O toque continuou e cada nota era como uma serra elétrica cortando um tronco bem grande ao lado dos ouvidos dos que ali jaziam, com olhos fortemente fechados para impedir a entrada da nociva luz do sol em seus olhos. O toque soou mais uma vez e foi atendido pela Cineasta.
            - Hunrgh...- Tentou dizer algo e não obteve sucesso.
            A pessoa do outro lado falou alguma coisa que foi compreendida por, aproximadamente, 9 micro segundos na cabeça da Cineasta e logo foi esquecido.
            - Aham... Pra você também, beijo tchau. – Mal terminou as ultimas palavras e o celular estava desligado, caído e aberto no chão.
            Ao fundo tornaram-se audíveis os gemidos de dor e desconhecimento do local e hora em que sua mente e corpo se localizam. Ernesto estava debruçado no encosto de uma cadeira e seus pés não tocavam o chão onde estava seu chapéu e paletó. Ele se levantou e percebeu que o mundo girava a sua volta, como se seu próprio cérebro fosse um redemoinho colérico. Se esforçando para não cair, ele se abaixou, pegou seu chapéu e o bateu nas coxas na intenção de limpá-lo. Olhou a sua volta e tudo estava um caos. O Artista estava deitado sem camiseta no balcão e “2012” estava pintado em sua barriga. Helen estava deitada em uma mesa e usava uma coroa e abraçava um abacaxi. A Cineasta jazia de bruços em duas mesas juntas e seu braço esquerdo estava balançando para lá e para cá e uma lente de seus óculos havia quebrado. O Viajante estava com a cabeça no ombro do Conde que, por sua vez, fazia o mesmo com o Gótico que estava com a cara esfregada em uma das janelas. Quando Ernesto esfregou os olhos e meio que recuperou seu equilíbrio viu que Diego estava ao seu lado em posição fetal, sua cara manchada com bolo de chocolate.
            - Ernesto... O que houve? – Perguntou com cara de cachorro abandonado.
            - Eu... Não sei! Onde está Tremoço? – Olhava para os lados ao perguntar.
            Diego apontou para cima e Ernesto acompanhou seu gesto. Tremoço balançava moribundo em um dos lustres e sua mão segurava uma garrafa sem rótulo. Ele abriu os olhos bem devagar e quando viu que estava muito acima do chão estremeceu e caiu, fazendo muito barulho. Levantou-se assim que atingiu o chão e estava totalmente desperto e fazendo pose de que havia sido proposital. O estrondo de tremoço havia despertado todos e eles repetiram em uníssono os resmungos. Ao abrirem os olhos e verem as próprias situações todos se entreolharam durante o que pareceu uma eternidade até o sininho do batente tocar com a porta abrindo.
           
            Geléia entrou com suas coisas e pendurou o casaco no mancebo ao lado. Fazia isso enquanto assobiava, e ao dar o primeiro passo para dentro do estabelecimento percebeu a bagunça que o local estava. Olhava impressionado para todos os cantos e em sua mente um torvelhinho de perguntas se formava, lhe causando dor de cabeça.
            - Vocês ficaram aqui quando tranquei o local para o feriado? – Perguntou incrédulo enquanto atrás dele chegavam Menino Ottis, Gregório, Thelma e KD. Todos rindo.
            - Rá rá! Ah, Geléia! Você nem vai acreditar nessa história! – Disse o Menino Ottis segurando uma câmera.

"Ele se levantou e percebeu que o mundo girava a sua volta, como se seu próprio cérebro fosse um redemoinho colérico."