O "Café do Geléia", fundado por Giovanni Di PaZZo, começou como um pequeno café na esquina da rua Orlontis com a rua Coronel Verde. Servindo apenas poucas variações do simples café o lugar foi ganhando fama devido ao seu ambiente altamente aconchegante contendo fotos de viagens feitas pelo "Geléia" (apelido carinhoso de Giovanni), relíquias e artefatos adquiridos em suas diversas aventuras pelo mundo em busca do melhor café que existia. Certo ano, Giovanni conseguiu por métodos misteriosos o melhor café que os que ali passavam já haviam provado e começou a plantá-lo e serví-lo em seu pouco famoso "Café do Geléia". O lugar ganhou fama pelo seu café fabuloso e pelo ambiente que sugeria um conto de histórias entre amigos. Agora vivemos estas histórias... Bem vindos ao "Café do Geléia".

sábado, 31 de março de 2012

Relacionamentos


            Amor. Sentimento este que permeia a essência da alma humana. Todo ser humano, incluso o Gótico, tem uma capacidade, por mais que pífia, de amar. Ver casais apaixonados é uma coisa muito comum quando se anda muito por aí. O amor está em todos os lugares, como pode ser percebido até pelo mais leigo dos seres humanos. No momento, um leigo ser humano conhecido por ser um artista, estava percebendo o sentimento no ônibus que se encontrava no momento.
            Chegou a uma conclusão. A conclusão era que aquilo o irritava. Quando se está sozinho em seu canto e tem, pelo menos, dois casais no mesmo ambiente, parece que todos no local estão mais felizes e apaixonados e que a vida deles é muito mais legal do que a sua. Enquanto são trocados carinhos e beijos começam a se tornar audíveis as risadinhas, os comentariozinhos e um monte de coisas começam a ficar no diminutivo com vozes agudinhas. O caminho até o Café nunca foi tão desconcertante e era difícil manter o foco e tentar escrever algo ou simplesmente produzir uma imagem na cabeça. Quando finalmente chegou no ponto em que descia, o Artista andou pelo corredor de olhos virados ao passar pelos casaizinhos e quando por fim saiu do veículo bufou como se estivesse prendendo a respiração durante todo o tempo que passara lá dentro.
            Foi então que era perceptível que, se a vida fosse um filme, um “Zoom” ocorreria agora. A câmera viria desde o balcão para se fixar rapidamente nos olhos, agora esbugalhados, do Artista. Hoje devia ser o dia que os deuses tiraram para mexer com ele. Mais casais haviam se alojado no Café e estavam sempre juntinhos e abraçadinhos enquanto tomavam bebidas quentes da mesma xícara. Ele fechou a cara e foi em direção a sua mesa costumeira, mas ao chegar lá percebeu que ela estava ocupada pela Cineasta Desacreditada. O coração do Artista quase parou, então. Tentando manter a postura e fingir que nada estava ocorrendo em sua mente, ele tentou se desviar do possível campo de visão da Cineasta, fazendo assim com que ela nunca percebesse que ele por ali passou e ele então poderia buscar uma mesa solitária ou um lugar ao balcão. Não conseguiu. Ela o viu antes de qualquer movimento, o convidou para se sentar e ele, ainda de cara amarrada, aceitou relutantemente.
            Muitas pessoas já estiveram em montanhas russas. As que não estiveram deveriam ter ido pois é uma ótima experiência e também é parecido com o que acontecia agora na cabeça do Artista. Sua atenção ficava em subidas e descidas. Uma hora ele ouvia o que a Cineasta falava, outra hora ele simplesmente pensava no como os olhos dela eram bonitos. Uma hora ele quase lançava um comentário com uma risada sem graça e em outra hora ele simplesmente tinha a impressão de que o sorriso dela brilhava como o sol. Até que durante a conversa:
            - Pô... Hoje tem muitos casais aqui, hein? Haha, isso me lembra uma vez quando eu estava com Skulz...
            - Skulz? – Perguntou o Artista num salto.
            - Um pessoa que conheço. Enfim... – Ela continuou.
            O mundo do Artista desabou. Tudo trincou, ficou preto e branco e o tempo parou. A voz da cineasta continuava falando como uma assombração bem diante de seu cérebro debilitado, mas ele logo a desligou, adicionando ao mundo cinza uma interferência. Quem era esse Skulz? O que eles já passaram juntos? Por que ela lembrou dele justo agora? O que estava acontecendo!? De repente, o cérebro auto-defensivo do Artista tomou uma decisão brutal e o obrigou a dizer:
            - Eu não consigo me concentrar com você falando... – Ele arregalou os olhos e ficou vermelho. Não queria dizer aquilo, então voltou sua atenção para a folha em branco a sua frente que, no momento, era mais compreensível que o mundo.
            - Beleza! Só queria puxar um assunto, mas fica aí na sua, cara!
            Ela se levantou e foi sentar ao lado do Velho para jogar xadrez e passar um tempo com Viras.

            No balcão ao longe, Geléia começou a rir baixinho enquanto organizava seus copos artesanais e promocionais. Menino Ottis estava trocando cartas de jogo com Thelma quando viu o Artista e a Cineasta se desentenderem.
            - O que aconteceu, Geléia?
            Ele respondeu rindo:
            - Alguém está apaixonado e agindo como tal.
            - Eles deviam namorar! – Disse Thelma de repente.
            Menino Ottis a olhou incrédulo e depois olhou para o amigo Artista sentado em seu canto.
            - Ele é idiota mas nem tanto, Thelma.

"O mundo do Artista desabou. Tudo trincou, ficou preto e branco e o tempo parou."

quarta-feira, 21 de março de 2012

Herói


            “Ah! O início da jornada!” Bradou o Conde em sua mesa, tomando para si a personalidade de um verdadeiro trovador. Romântico, audacioso, de fala rápida e sagaz. Alguns diriam que quase ardiloso, mas com a eloquência de um bardo e o carisma de um líder ele prosseguiu para contar alguma epopeia grandioso para os que estavam naquele momento no Café do Geléia.
            O Conde tinha uma força de personalidade que podia abalar, inflamar e até sobrepujar as almas de seres humanos próximos com suas palavras tão bem ditas e encaixadas em frases quase épicas. Ele continuou seu discurso segurando junto ao corpo um caneco, desta vez com hidromel, e movendo a outra mão para aumentar mais ainda a história que iria se seguir.
            “A jornada deste herói será algo trágico e belo, eu vos digo! O papel do herói é sempre estabelecido em nossas mentes e sabemos que ele é destinado para algo. Mas o que importa, como em toda boa história, não é o final, mas sim o caminho para esse destino tão esperado!” Bebeu um pouco do líquido do caneco deixando um fio bem fino escorrer pelo canto da boca fazendo a barba brilhar sob as luzes que davam a ambientação de uma taverna.
“Veremos, então, na jornada que se segue, os perigos e desafios que se colocarão à frente de nosso protagonista. Estes desafios, não meros encontros de sorte e azar, são na verdade o veículo de evolução do herói! Pois como todos sabem, a maior característica destes protagonistas é o fato de eles virem de um histórico social simples, humilde e imperceptível aos olhos dos líderes de sua terra.” Ninguém interrompeu o Conde por mais que pudesse. Todos faziam silêncio ao assistirem o homem que estava agora, como sempre, em cima de sua cadeira fazendo seus atos como um verdadeiro artista de teatro. Os clientes o olhavam como tal.
            “Ele sairá de sua atual vida por muitos motivos! O desejo incontrolável pela viagem sempre existe. O desejo de ver terras novas e conhecer as culturas e suas práticas é algo que existe neste herói desde seu nascimento, e este é um dos maiores motivos pela sua aventura, por mais que ele não o admita. Existe também a ameaça a tudo que ele julga precioso e querido em sua humilde vida. E aí vemos a eterna batalha do bem contra o mal! Nosso herói passa de simples viajante vindo de um pequeno assentamento humano para um campeão da virtude e portador da glória!” Algumas lágrimas eram visíveis em certos rostos para quem parasse e olhasse. E mais um gole era lançado garganta abaixo pelo nosso escaldo.
            “A jornada também será exemplo de tragédia, como antes dito! Pois o nosso campeão sabe que suas escolhas exigirão sacrifício, e que esses sacrifícios permearão sua alma por toda a eternidade.” Fechou os olhos por um período e todos esperavam a conclusão que devia se seguir pelo tom de voz usado. O Artista Solitário era o único que parecia impaciente com a coisa toda. Por fim se seguiu em tons melódicos: “Mas são estas escolhas e a coragem de seguir em frente que tornarão o nosso personagem aqui dito, o herói da história e alguém que será celebrado por suas escolhas, lutas, perdas e lágrimas... Aos heróis que antes deste vieram!” E ergueu sua caneca, fazendo todos brindarem ao momento. Era uma noite grandiosa.

            Depois dos aplausos e choros terminarem, o Conde se sentou de volta à mesa onde o Artista, a Cineasta, Menino Ottis e K.D. esperavam. Por fim, o Artista disse depois de tentar acalmar os nervos:
            “Você vai ser o Clérigo ou o Paladino afinal?”
            K.D. começou a brincar com as miniaturas.
            “Serei o líder relutante, porém magnífico em sua majestade. Inspirarei medo nos...”
            “Corta essa!” gritou a Cineasta. “Paladino, então?” Disse irritada.
            “Sim. Paladino.” Disse o Conde com um sorriso triunfante.

“Ah! O início da jornada!”

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Velho


            Vazio. Era como estava o Café naquela noite. As mesas, cadeiras, xícaras, bancos, todos estavam vazios. Qualquer um que passasse por lá poderia quase esperar um bredo-do-deserto passando pelo ambiente como naquelas cenas de filmes de faroeste durante um duelo mortal. Mas, como todos sabem, nunca algo está completamente vazio e, sendo um estabelecimento publico e de boa reputação, o café estava habitado somente por Geléia, Helen e o Velho.
            Geléia e Helen estavam apoiados no balcão. Helen tomava o seu café de sempre enquanto Geléia mexia para cima e para baixo o sachê que deixaria sua água quente com gosto de mel fazendo assim o famoso chá. Seus olhos fitavam o nada e ele estava com uma cara que expressava a mesma coisa. A televisão estava ligada, mas estava no mudo enquanto passavam desenhos animados que não cumpriam o papel de divertir o publico. A jukebox estava em um volume bem baixo, quase não atingindo os ouvidos de ninguém. Helen olhava o próprio reflexo em seu café e batia as unhas de leve na xícara que exalava um vapor leve que estava, lentamente, se esvaindo.
            A mulher começou a olhar para os lados e, depois de dar um gole leve na bebida, disse:
            - É...
            Geléia, ainda olhando para o nada, respondeu.
            - É... – E suspirou.
            E ali ficaram, naquele silêncio da falta de assunto por mais ou menos dois minutos. Helen então quase teve uma epifania. Percebeu que, em todos os anos que conhece o Geléia como gerente de café, ela nunca soube a origem do Velho. Sua mente então foi atacada por dúvidas. Quem era o Velho? O que ele fazia sempre por lá? Por que ele sempre tinha o sorriso estampado no rosto enrugado? E como certas pessoas se sentiam melhor depois de alguma conversa filosófica com ele?
            - Geléia? – Arriscou por fim.
            - Hm? – Seus olhos arregalaram, mas ainda fitando o nada, de um modo quase catatônico.
            - Qual a história do velho?
            Geléia acordou de seu torpor e olhou para o senhor. Ele estava sentado em seu canto, mãos na velha bengala artesanal e olhava para a porta com um sorriso. O gerente não conseguiu não sorrir ao olhá-lo. O Velho tinha esta estranha aura, algo quase místico, que o cercava. Todos o cumprimentavam dizendo “bom dia” ou “boa noite”, dependia do horário. Ele era quase que como um enfeite do lugar e todos concordavam que ele combinava perfeitamente com o conjunto.
            - Sabe que... eu sinceramente não sei? – Disse Geléia com um ar confuso enquanto levantava uma única sobrancelha. – Sei que já fizeram histórias sobre ele aqui... Alguns dizem que ele é o ultimo bom ser humano da terra. Alguns dizem que ele é imortal. Já ouvi gente dizendo que ele é Deus em pessoa... Eu acredito que ele seja um ótimo cliente. – Geléia parou e pensou um pouco olhando para os cantos do estabelecimento – E também é um bom enfeite...
            - Não chame o Velho de enfeite! – As palavras foram seguidas de um tapa no braço do gerente - Achei que você conhecesse todos os seus clientes... – Helen bebeu mais um pouco do café e olhou para o velho que acenou jovialmente para ela.
            - Ei, ele já estava aqui quando comprei o lugar! E ele sempre fica quando vou embora. Mas acredito que o mais importante seja o fato de que, quando eu o cumprimento com um aperto de mão, sempre acho dinheiro no meu bolso...
            E ali ficaram os dois amigos, conversando sobre os mistérios do “Negro Místico” local enquanto ele sorria para o nada, como se a vida fosse algo que ele conhece de trás para frente.

            Dado algum tempo, Geléia começou a fechar o café e como de costume, o velho ainda estava lá, dessa vez com Viras ao seu lado. Momentos depois, o gerente foi ao banheiro antes de começar a apagar as ultimas luzes. Enquanto estava lá, o Velho se levantou sorrateiramente como um verdadeiro bandido e escorregou um pouco de dinheiro para dentro do bolso do casaco do Geléia, que sempre ficava perto da porta. Viras o olhou virando a cara e com as orelhas para frente.
            - Deixe-o continuar acreditando na magia, garoto.
            E sorriu enquanto se sentava de novo.

"Qual a história do velho?"

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fredo


            Todos nós gostaríamos que nossa vida fosse um filme. Nos filmes tem todo um desenvolvimento empolgante na história, onde os heróis, que seríamos nós, somos introduzidos ao público, mostramos nossa vida, passamos por dificuldades e tudo fica lindo no final. Se tudo fosse um filme os dias ficariam lindos quando algo lindo fosse acontecer, choveria quando alguém morresse e nevaria naquele momento de reconciliação com a pessoa que você ainda ama. Tudo com direito a uma trilha sonora. Infelizmente na vida real só podemos colocar os fones de ouvido e achar que aquilo é uma trilha sonora para um dia como qualquer outro em que está ensolarado mesmo estando tudo um saco.  Estranhamente, as vezes acontece de algum “poder maior” ajudar a tornar tudo mais interessante. Por bem ou por mal.
            Era uma tarde de poker e de leve chuvisco no Café. O Artista, a Cineasta, Ernesto, Tremoço, Diego, o Conde e o Gótico estavam presentes em uma mesa redonda com fichas e cartas dispostas por toda a tapeçaria verde que forrava a velha mesa de madeira. O barulho das fichas se misturava ao som de copos e xicaras em pires. A conversa do resto da clientela era um som suave ao fundo e não desconcentrava os jogadores que faziam suas maiores caretas para não entregar seu jogo. A Cineasta estava ganhando. Os outros estavam dizendo que ela estava roubando.
            - São os ocúlos! – Dizia ela enquanto se apossava da pilha de fichas jogadas sobre a mesa.
            A chuva apertou lá fora e, não mais do que de repente, a porta do café se abriu levemente, trazendo consigo uma brisa fria e alguns respingos de água. Helen parou ao dar um passo para dentro do café e deixar seu guarda-chuva preto no porta guarda-chuvas. Todos mudaram os semblantes ao olhá-la toda vestida de preto e com um ar tristonho em seu rosto geralmente jovial. Ela caminhou a passos curtos em direção ao balcão, passando pela mesa de jogo. Todos, com suas feições preocupadas, pensaram em perguntar algo mas nada fizeram. Porém, enquanto o Gótico sorria tortamente, Menino Ottis perguntou:
            - Qual o motivo dessa cara, Helen?
            A mulher o olhou e sorriu com um esforço. Depois de dar um tapinha no ombro do garoto, virou seu rosto para Geléia que estava no balcão e disse com lágrimas nos olhos:
            - Fredo faleceu...
            - O cara de “O Poderoso Chefão”? – Disse o Artista, que se amaldiçoou depois de ter feito uma piada naquele momento. Ninguém riu. Helen não percebeu.
            Geléia se apressou para perto da amiga e a abraçou.
            - Fredo era um amigo nosso... – Disse finalmente após um suspiro. Viras, o cão de guarda oficial do Café, entrou e se aproximou de seu dono, sentando ao seu lado – Tudo bem, Helen, querida. Lembra-se de como Fredo era alegre? Ele não gostaria de nos ver assim... Temos que honrá-lo contando histórias a seu respeito e sorrindo ao lembrar dele. Lembro-me de uma vez...
            E Geléia começou a contar aos outros algumas histórias de seu amigo agora falecido. Helen conseguiu esboçar alguns sorrisos depois de histórias e da companhia de Viras, mas dado algum tempo ela disse:
            - Obrigado, Geléia. Agora... que tal um pouco daquele seu delicioso café para aquecer esta alma cansada? – E, como nos filmes, a chuva começava a parar e dar espaço para um sol poente que derramava sua luz nas nuvens carregadas, e trazia o tão aquecido tom laranja em todo o mundo banhado por sua luz. A cena cinematográfica foi suficientemente forte para arrancar uma lágrima do Conde.
           
            Geléia foi ao balcão com sua amiga e a serviu de seu café costumeiro. Ela o bebericava enquanto fazia carinho no cão que não deixou seu lado.
            - Tudo bem com você, Helen? Quer conversar?
            Ela depositou a xicara no pires e respondeu com um sorriso:
            - Obrigado, Geléia, mas prefiro ficar com o Viras por enquanto. Obrigado. Eu não me lembrava que você tinha tanta vivencia com o Fredo...
            O Gerente sorriu e se dirigiu a mesa de poker. Todos o olharam e começaram a dar os pêsames pela perda do amigo. O Artista disse:
            - Vocês deviam ser bem próximos... Sinto muito.
            Geléia o olhou e respondeu com o riso paterno de sempre:
            - Você acredita se eu disser que nem sabia de quem ela estava falando?

"Fredo faleceu..."

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Crenças


            Horário de almoço. O café estava sempre vazio nesta hora, afinal quem preferiria comer alguns salgadinhos e tomar um café deixando de lado a feijoada que era servida, todas as quartas, em estabelecimentos ao redor? Estavam no café apenas uns poucos clientes costumeiros e um ou outro homem de terno, daqueles que sempre diz que está sem tempo.
            Menino Ottis estava, como em poucas vezes, sentado na mesma mesa que o Artista. O jovem mantinha os dedos entre os olhos, em movimento de massagem, como se tentasse espremer alguma ideia de sua cabeça turbulenta. Outros achariam que tudo que ele estava tentando fazer era abstrair o barulho que Menino Ottis fazia com o brinquedo que havia escolhido para trazer hoje ao Café.
            - Você gostou mesmo desse tanque de guerra, hein? – Perguntou o Artista tentando soar o mais carismático possível.
            Menino Ottis olhou para o Artista com um grande sorriso e disse:
            - É um APC. Veículo de controle urbano! Tem até uma metralhadora, olha! – Fez sons de tiro enquanto mirava a arma para o Artista. – E o que torna ele melhor é que ganhei do Papai Noel no ano passado!
            - Parece bem legal mesmo! – Disse o Artista tentando voltar a atenção para o seu caderno.
            O Gótico passava ao lado com o olhar triste de sempre, uma mão parecendo uma garra e a outra carregando um copo comprido com um liquido verde dentro quando disse ao menino que brincava alegre:
            - O Papai Noel não existe, sabia?
            Um copo fez-se ouvir quebrando atrás do balcão. O silêncio se tornara uma entidade plausível e palpável. O Artista tirou sua atenção do caderno se voltando com olhos vítreos para o Gótico. A Cineasta limpava uma lagrima de seu rosto e tentava retomar o folego enquanto se aproximava da mesa para se sentar. Ottis era como um monólito. Com olhos fixados no nada, sua alma parecia um ovo espatifado no chão da cozinha. Enquanto o garoto andava em passos largos e pesados na direção do balcão, o Artista e a Cineasta confrontavam o Gótico.
            - Por que falou isso, cara? – Perguntava a Cineasta, ainda incrédula.
            O Gótico a fitou com seu clássico olhar pesado de que nada valia a pena.
            - Por que é a verdade... – Bebericou um pouco de seu absinto.
            - Ah, qual é! Todos nós aprendemos isso um dia, mas não precisa acabar do nada com as crenças do garoto! – Ela coloca de volta seus óculos.
            O Gótico estalava os lábios em gesto de degustação. Carregava o copo rente ao corpo como um faraó faria com seu cetro. Sua figura estática parecia um mau agouro ficando em pé ao lado da mesa onde os dois jovens se sentavam.
            - Mas se ele vai aprender isso uma hora ou outra, que diferença faz se aprender agora?
            A Cineasta franziu a testa.
            - A diferença é que ele vai achar a vida muito mais divertida e mágica enquanto ele acreditar no Bom Velhinho. – Disse o Artista tomando lado na discussão.
            O Gótico nem se deu ao trabalho de responder. Sabia que seus pensamentos, certos em sua cabeça, eram mal vistos por todos ali dentro.
            - Você com certeza já acreditou em algo, homem! – A Cineasta quase gritou ao saltar da cadeira para segurar a gola do Gótico.
            O homem então se lembrou. Se lembrou de quando era garoto em sua casa dilapidada que ele tanto adorava. Se lembrou do medo que ele sentia ao ouvir falar do Vampiro no sótão e nos lobisomens que rondavam a casa de noite. Lembrou-se do como a vida era emocionante naquela época em que tudo dava medo e era uma aventura correr para o sótão para buscar um brinquedo antigo ou vasculhar a história da família tão desorganizada.
            Um vento gélido soprou para dentro do estabelecimento e os óculos da Cineasta trincaram. Ela olhava para o Gótico e jurava ter visto uma lagrima de gelo caindo de seu rosto, mas não sabia se podia confirmar o ocorrido. Todos estavam em silêncio mais uma vez.
            - Acho que... Tem razão. A vida era mais mágica quando o místico ainda era real... – Disse o Gótico se dirigindo a um canto escuro que surgira de repente.
            A Cineasta e o Artista se entreolharam.
            - Na boa? Esse cara me faz questionar se não acreditamos mesmo nesse tipo de coisa... - Concluiu a jovem.
            E a contradição se fez presente em todas as mentes.

            Enquanto isso, Menino Ottis se sentava no balcão, emburrado e com seu brinquedo a sua frente. Mexeu ele para frente e para trás em desanimo enquanto Geléia limpava o balcão com um sorriso paterno em seu rosto. O sorriso foi o suficiente para fazer Ottis tomar coragem e perguntar:
            - Geléia... O Papai Noel não existe?
            O gerente o olhou, fez um carinho na cabeça do garoto e disse por fim:
            - Se ele não existisse... Quem te daria esse brinquedo que você tanto gosta?

"O Papai Noel não existe, sabia?"

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Super Poderes


Quadrinhos. Todos já leram um na vida. Seja esse quadrinho algo bobo sobre uma turminha besta ou seja esse quadrinho sobre super heróis salvando mundos inteiros ou seja ele uma, em termos de sabichão, graphic novel.  Todos tiveram um herói predileto, aquele que, mesmo você não tendo dinheiro suficiente na mesada para comprar gibis do mesmo, você sabia tudo que estava ocorrendo na vida do campeão.
              Naquela tarde de verão, as crianças estavam no café com suas coleções de gibis dispostas sobre a mesa. Gregório estava lendo uma edição de seu herói favorito, o “Alerta Negro”. Nesta edição ele usava suas artimanhas para impedir o famoso mafioso, Dr. Jurademorte. Menino Ottis adorava os clássicos e variava entre revistinhas dos maiores heróis como “Almirante Justiça” e “Leopardo Vermelho” em edições diversas com os maiores vilões. Thelma era fã de uma leitura mais descontraída e por isso estava lendo a famosa “Turma do Pestana”, e pra variar, o Pestana estava falhando miseravelmente em ser o dono da escola. K.D. lia uma cópia de “Orion: Campeão do Futuro”, um quadrinho que ele mesmo escreveu e ilustrou, demonstrando assim seu apego pela ficção científica.
Em meio a tantos super heróis, Thelma decidiu lançar um tema entre seus amigos.
              - Se vocês pudessem escolher um super-poder, qual escolheriam? – Perguntou então.
K.D. a olhou com um sorriso enorme que se fazia visível através de seu capacete de Juiz Dredd.
              - Eu dominaria a força e me tornaria um excelente mestre Jedi! - K.D. respondeu em alto e bom som.
              - O melhor que você consegue pensar é um pouco de telecinesia? – Perguntou Gregório.
- Telecinesia e raios!
- Só para o lado negro da força!
- Eu posso ir para lá quando quiser, valeu? – K.D. apontava para Gregório ameaçadoramente.
Sempre tentando quebrar o gelo e a tensão entre os amigos, Menino Ottis se fez presente:
              - Eu teria visão de raio-x!
              A reação de todas as crianças foi a mesma: cair na gargalhada. Ottis estava desacreditado com todos e seu rosto só mostrava um desconserto absoluto. Todos já choravam de tanto rir quando Thelma perguntou:
              - Mas por que diabos você quer visão de raio-x, Ottis? Com tantos poderes legais… - não conseguiu completar a frase e caiu na gargalhada de novo.
              - É um poder superlegal, tá?! - gritou nervoso.
              Gregório, enxugando uma lágrima que escorria de tanto rir, diz:
              - Super-força, voar, soltar raios, respirar embaixo d'água… até mesmo a habilidade de saber ler em braile é melhor que isso, Ottis… Imagine a situação: um monstro, senhor Godzila, ataca a cidade. O que você faria com sua visão de raio-x? Descobriria se o estômago dele está muito vazio e calcularia quantos carros ele ainda conseguiria comer?
              Todos caíram na gargalhada mais uma vez e Ottis afundava em seu assento. Em sua cabeça, as gargalhadas levaram pelo menos dois anos para pararem e quando todos estavam em silêncio e voltando a suas respectivas leituras, K.D. disse vitorioso para Gregório:
- E que fique claro que meu poder é plausível depois de “A Ameaça Fantasma”.

              Dado um tempo, Geléia veio ver se as crianças precisavam de algo e o primeiro a dizer algo foi Ottis, que bradou:
              - Geléia, me traga uma Coca-Cola bem gelada que vou encher a cara… esses paspalhos não sabem o que é superpoder de verdade…
              Todos começaram a discutir de novo até que Geléia disse após um pigarro:
              - Não liga pra eles… quando ficarem mais velhos todos vão ter inveja da sua visão de raio-x.
              A empolgação com a suposta vitória era quase palpável no Menino Ottis naquele momento.

"A reação de todas as crianças foi a mesma: cair na gargalhada."
Texto de Caio Stachi Boracini (DeviantArt de Caio)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Simples


            Era noite. Naquele momento, o café estava quase vazio. O Gótico estava em um canto encostado na janela e o Artista estava no outro canto do estabelecimento, coberto com a própria jaqueta e roncando sonoramente. Geléia estava vendo algum seriado, sem muito interesse, em um volume baixo para não atrapalhar os dois únicos clientes daquela hora. Passado um tempo, o gerente decidiu ir ao Jukebox.
            Ele olhava para os clássicos que ali viviam a tocar. O bom e velho jazz estava sempre por lá encantando sua visão no painel. Apertou uma combinação qualquer e a música começou com seus saxofones e o piano. O piano sempre foi o instrumento que fazia aquele homem gordo sorrir e parar por alguns minutos em sua poltrona apenas ouvindo um pouco da boa música enquanto o mundo rodava sem ele perceber. Sem ele querer perceber, pelo menos. Em meio a um solo suave de sax Geléia ouviu o sino da porta tocando e logo olhou para trás, se deparando com um rapaz jovem e agasalhado entrando com um rosto pesado em seu estabelecimento.
            Geléia deixou a música tocando e se dirigiu para trás do balcão onde o homem estava indo se sentar. A música era leve como os movimentos do rapaz. Carregando uma maleta em uma das mãos, ele retirou seu cachecol e o colocou sobre o balcão, no banquinho ao lado deixou seu casaco e maleta, revelando uma blusa chique com gola role.
            - Boa noite, senhor. Posso serví-lo esta noite?
            O rapaz passou a mão na blusa para retirar alguns fiapos, depois olhou para o gerente e, sorrindo, respondeu:
            - Eu gostaria de um copo de seu café gelado, por favor.
            - É pra já. – Respondeu o calmo gerente.
            Os intrumentos tocando faziam um excelente ambiente. De alguma maneira, o saxofone e o baixo relaxante pareciam dar um tom sépia ao local para onde o rapaz olhava. Um sorriso inconsciente lhe veio ao rosto ao ver que o jukebox estava ligado em uma música tão calma e ao mesmo tempo a TV revelava um noticiário que, muito provavelmente, mostrava uma desgraça ou outra.
            - É um ótimo lugar que tem aqui, senhor. – Disse finalmente.
            - Ora, obrigado. Fico feliz que os clientes gostem. É o que tenho de mais valioso em minha vida.
            O rapaz continuava a olhar em volta e o piano parecia que queria criar a trilha sonora para cada foto e decoração que enfeitava aquele local aconchegante. Geléia chegou com o pedido do moço que logo se voltou para o balcão, agradecendo. Dado um tempo e algumas notas, saltou uma pergunta:
            - É sempre assim parado por aqui?
            - Nem sempre. Hoje parece ser exceção. Mas gosto de dias assim, sabe? Parece que o mundo não existe, por mais que seja por alguns minutos de uma musica.
            O homem concordou com a cabeça e deu uma risada.
            - São bons os dias assim. - Deu um gole em seu café. – Sabe... Eu não entendo como pudemos tornar o mundo um local tão agitado. A apenas uma geração atrás tudo parecia tão mais calmo... E hoje em dia todos dizem não ter tempo para nada!
            - Sim, nunca entendi isso também. É por isso que mantenho este lugar como ele é. Simples.
            - Simples. Acho que esta é uma palavra não muito aceita nos vocabulários modernos. – Bebeu mais café. – Nós trabalhamos até nos exaurir. Mal temos tempo para nossas mulheres. Mal temos tempo para filhos por que tudo que queremos é fazer de tudo para não perder nada de nossas próprias vidas com o intuito de ganhar mais dinheiro para ter mais coisas que nunca vamos aproveitar...
            O café era aconchegante e o ambiente fez o homem fechar os olhos por um segundo. Estava falando mais do que o normal. Havia trabalhado até tarde a semana inteira e não teve tempo para coisa alguma e agora parecia que finalmente estava aproveitando o que mais gostava de fazer na vida. Ouvir um bom som e parar por alguns segundos.
            - Por isso estão todos estressados e desrespeitosos ultimamente... – Disse por fim.

            Geléia olhou para o homem com um sorriso e disse:
            - Pois é. Parece que as pessoas esqueceram que tudo o que você precisa é de um bom café em uma poltrona ao som de jazz. O mundo, às vezes, simplesmente não precisa existir.

"O café era aconchegante e o ambiente fez o homem fechar os olhos por um segundo."