O "Café do Geléia", fundado por Giovanni Di PaZZo, começou como um pequeno café na esquina da rua Orlontis com a rua Coronel Verde. Servindo apenas poucas variações do simples café o lugar foi ganhando fama devido ao seu ambiente altamente aconchegante contendo fotos de viagens feitas pelo "Geléia" (apelido carinhoso de Giovanni), relíquias e artefatos adquiridos em suas diversas aventuras pelo mundo em busca do melhor café que existia. Certo ano, Giovanni conseguiu por métodos misteriosos o melhor café que os que ali passavam já haviam provado e começou a plantá-lo e serví-lo em seu pouco famoso "Café do Geléia". O lugar ganhou fama pelo seu café fabuloso e pelo ambiente que sugeria um conto de histórias entre amigos. Agora vivemos estas histórias... Bem vindos ao "Café do Geléia".

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Férias


            Finalmente estava fazendo um pouco de frio. Ainda não era o frio desejado pelas pessoas que gostam dele, mas era um frio onde as pessoas poderiam tirar blusas do armário e cachecóis das gavetas, se assim quisessem. Gorros também poderiam ser bem vindos. Em meio a pessoas reclamando da temperatura e do céu nublado andava o Artista, levando consigo seu caderno e indo em direção ao lugar mais aconchegante que conhecia.
            Chegando ao local, o rapaz viu pessoas paradas na porta de entrada. Algumas olhavam dentro e depois iam embora, outras passavam reto, mas os clientes mais fiéis estavam parados na porta como que esperando algo. O Artista se aproximou e perguntou para a Cineasta:
            - O que está acontecendo? – E olhou para dentro do Café vazio.
            - A placa na porta diz “Fechado”, cara... Mas o Geléia nunca fecha nesse horário... – Respondeu ela enquanto tentava esquentar as mãos esfregando-as.
            - Sim, este é o horário que todos saem do trabalho e querem um café... – Disse Tremoço, que trazia consigo um rolo de corda no ombro e uma picareta em uma mão. Diego e Ernesto tinham capacetes de segurança e pás.
            Durante as conversas sobre o que poderia estar acontecendo, Menino Ottis desceu de uma das vidraças e disse:
            - Ei, pessoal! O Velho está lá dentro, como sempre! Quem sabe ele não possa abrir para nós?
            Todos começaram a batucar no vidro tentando chamar a atenção do velho, que parecia dormir com o sorriso estampado no rosto. Ele não se moveu.
            - O Velho inútil deve ter morrido! – Disse Ernesto, emburrado. Diego o socou no ombro.
            Dado um tempo todos viram Geléia vindo dos fundos do Café. Ele usava um suspensório e chapéu. Se aproximou da porta envidraçada e abriu-a com a chave de um molho bem recheado.
            - Não viram a placa, pessoal? – Ele perguntou, mas logo deu espaço para eles entrarem. Geléia começou a colocar as cadeiras em cima das mesas.
            - O que está acontecendo, Geléia? – Helen se aproximou do amigo para fazer a pergunta.
            - Estou arrumando o lugar, oras.
            - Para ninguém? – Perguntou o viajante olhando em volta.
            Geléia suspirou. Depois de colocar mais uma cadeira em uma mesa ele lançou:
            - Estou fechando o Café.
            Caos. Tristeza. Depressão. O Gótico aparecera. Todos estavam em choque. Depois de mais um tempo arrumando o local, e percebendo o desespero de seus amigos, ele disse:
            - É por um tempo indeterminado. Estou precisando de umas férias...
            - Mas você adora trabalhar aqui!!! – Gritou Menino Ottis que estava com a cara toda espremida por causa das lágrimas. Geléia o abraçou.
            - Sim, eu adoro. E vou sentir saudades de todos vocês.
            - Então não vá! – Diego abraçou o gerente que tossiu pela força do ato.
            - Não podes abandonar seu cargo, ó Taverneiro! Tens um dever para com este seu grupo de amigos inigualáveis! – O Conde queria morrer de maneira Shakespeariana.
- Eu não sei para onde vou. Mas vou para alguns lugares. – Geléia ajeitou sua roupa – Vocês me proporcionam as melhores noites e as melhores histórias. Vocês tornam o cotidiano algo melhor. Vocês tornam este lugar o que ele é... Mas sinto que, no momento, como o contador de histórias que sou, preciso de histórias novas... Espero que entendam...
Menino Ottis o abraçou mais uma vez e disse:
- Boas férias, Geléia. Não se esquece de voltar, tá?
- Não esquecerei, garoto.
Helen disse para ele aproveitar ao máximo e que ele precisava mesmo de umas férias. A Cineasta disse para ele voltar com o máximo de histórias possível. O Conde lhe deu uma adaga de prata como um símbolo de boas aventuras e proteção na jornada. O Gótico lhe deu uma lágrima em um frasco e sumiu sem ninguém ver. O Viajante pediu ajuda com a bagagem emocional para sair do local. Os maiores pilantras do Café lhe pediram ouro Peruano, caso passasse pelo Peru.
- Lhes trarei um baú. – Disse o gerente, jovial como sempre.
Depois de todos se despedirem, o Artista veio para perto do amigo.
- Se tornou uma obrigação não é? – Disse por fim.
- O que? – perguntou Geléia.
O Artista gesticulou para o local.
- Isso tudo... Seu sonho se tornou um dever...
- É um motivo, devo admitir.
O Artista deu um pequeno sorriso e abraçou o amigo.
- Vou sentir muito sua falta, amigo...
Geléia não conseguiu conter a lágrima.
- Prometo que é temporário.
- Aproveite bastante, Geléia. Você merece. – Com isso, o Artista se virou e foi embora para a noite nublada.

            Geléia pegou sua mala, vestiu o casaco e pegou seu cachecol. Apagou as luzes e deu uma última olhada para o seu local. Seu santuário. Fez um último carinho em Viras e lhe assegurou que teria comida enquanto ele estivesse fora, pois pediu para um amigo cuidar dele. Pegou finalmente as chaves e foi fechar a porta.
            - Cuide bem do local para mim sim, Velho?
            O Velho fez um pequeno gesto com a mão. Geléia sorriu.
            - Prometo não demorar.

"Cuide bem do local para mim sim, Velho?"

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Necessário



            “Você viu minhas digitais em alguma evidência? Não? Foi o que pensei mesmo. Então aqui estamos, com você sem muito com o que me acusar e eu sem muito o que falar. Não vai conseguir nada de mim e dos meus parceiros pois não fizemos nada, então você pode pegar essa conversa de policial durão e enfiar em um lugar não muito convidativo, entendeu? A propósito... Se fizer algo com os meus amigos eu juro que arranco a sua pele com um estilete enferrujado e jogo ela para os seus próprios cães se refestelarem! E digo mais!”
            “Consegui passar de tela!” Bradou Diego, rindo.
            “Como assim? Parecia impossível!” Exclamou Tremoço, que se levantou de sua cadeira e foi correndo ver o jogo ao lado do amigo.
            Ernesto estava furioso. O café estava quase vazio, eles tinham conseguido o canto escuro onde Ernesto geralmente construía seus grandes esquemas e tudo que eles precisavam era ensaiar. Mas o grupo não estava cooperando. Diego parou de dar risadas, mas com um sorriso virou-se para Ernesto.
            “O que você estava dizendo?”
            Ernesto socou a mesa.
            “Eu estava simplesmente ensaiando o nosso plano combinado anteriormente!” Suas orelhas estavam quentes agora e ele começou a afrouxar a gravata.
            “Ah, sim!” Diego disse voltando a atenção para o computador portátil. “Mas já falamos sobre isso, lembra? Eu entro pelo portão 3. Com um alicate corto arames e o uso como arma em um dos guardas.”
            “É” Continuou Tremoço “Depois disso Serpente Dourada se encontra com Águia de Bronze no setor cinza. Armas em mãos. Está tudo decorado, Ernesto.”
            “Pensei que não usaríamos codinomes...” Disse Diego, pensativo.
            “Está tudo planejado e não usaremos mais codinomes! Se vocês prestassem atenção veriam que estou treinando o discurso que faremos quando formos pegos, mas vocês estão muito ocupados com bugigangas eletrônicas!” Sua cabeça poderia explodir agora mesmo “Pra que precisam disso afinal? Tremoço, você mal tem dinheiro pra tomar seus cafés mas faz questão de ter dois celulares!” o baixinho quase se levantou da cadeira. “E você, Diego! Você deve usar a mesma camisa desde a sétima série, mas gasta o dinheiro que não tem em joguinhos e computadorezinhos que parecem tabuas! E aqui estou eu! Fazendo todo o trabalho difícil tentando arrumar um trampo honesto para tirarmos uma grana!” Se sentou emburrado.
            “Honesto?” Diego espremeu os olhos na medida do possível com o design natural de seu rosto.
            “Ah! Vocês entenderam!” Ernesto se levantou nervoso e foi para o balcão esfriar a cabeça longe de seus amigos.
            Depois de um intervalo, Tremoço disse baixinho antes de tomar um gole de café.
            “É um celular e um rádio, ok?”

            Ernesto se sentou no balcão tirou o chapéu e começou a coçar a cabeça, como faz a maioria das pessoas irritadas. Geléia veio de fininho e disse:
            “Dia difícil?”
            “Com parceiros como aqueles são raros os dias fáceis. Você faz todo um plano para um rou... Para uma jogada de marketing perfeita e eles não agem de acordo com o plano!” Parou por um instante “Me dê um refrigerante, Geléia, por favor...” Abaixou a cabeça no balcão.
            “Precisa de muito dinheiro e rápido?”
            “Só o suficiente para uma televisão nova...”
            E de repente a resposta de Ernesto soou levemente esquisita em sua própria cabeça.

" “Consegui passar de tela!” Bradou Diego, rindo."

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Frustração


            Era noite. Uma noite agradável. Não estava quente, nem frio, o clima era ótimo para usar uma camiseta e calças sem reclamar de sequer uma peça de vestuário. Também era uma noite agradável para tomar um café naquele lugar de sempre, na esquina da Orlontis com a Coronel Verde, aquele lugar quase sempre movimentado em noites como esta.
            A música estava agradável como sempre e no balcão estavam os clientes mais clássicos conversando com o gerente que trabalhava enquanto fazia parte das conversas. Enquanto isso, na televisão, passava “RoboCop” e poucos estavam assistindo. Estavam mais entretidos com aparelhos eletrônicos e conversas do que com o filme altamente violento.
            - Cara, eu adoro esse filme! – Dizia a Cineasta enquanto virava um pouco do cappuccino morno para dentro da boca.
            - Ele não deveria ter motivação agora que não reconhece a mulher e o filho... – Disse o Gótico com a voz costumeira enquanto segurava um grande copo de absinto.
            - A motivação dele são as diretivas. Ele é uma máquina, oras! – Disse o Artista Solitário.
            - “Meio máquina. Meio Humano. Totalmente Policial” – Disseram a Cineasta e o Artista em uníssono, demonstrando seu conhecimento sobre o filme.
            A conversa sobre cinema e afins seguiu rumo e era perceptível a sabedoria cinematográfica de cada um dos ali presentes. Depois de alguns minutos de conversa, a porta abriu com um grande barulho e, se isso fosse um filme, a música pararia, todos olhariam para o portal de entrada e alguém deixaria cair o cigarro da boca. Nada disso aconteceu. Em vez disso, os clientes do balcão olharam para a porta e viram que Menino Ottis estava chegando pisando forte até o balcão. Ele tinha um videogame em mãos.
            - Refrigerante, Geléia. Não importa qual! Nada mais importa! – Disse enquanto se virava no assento voltando-se para o resto do café, dando as costas ao balcão. Todos se entreolharam e o Artista decidiu começar um diálogo com o pequeno amigo.
            - Perdeu no jogo, Ottis?
            - Não. – Ele disse sem tirar a atenção para com o nada. – Só estou frustrado.
            - Não consegue passar de tela? Odeio isso também! Uma vez eu... – Tentou dizer a Cineasta que foi logo interrompida por Ottis.
            - Eu passo de telas. Estou frustrado por que... – Seu refrigerante havia chegado e ele bebeu um gole. – Estou frustrado por que, olha só: Quando eu jogo videogames eu tomo conta de personagens... Eles podem ser piratas, comandantes de naves espaciais, super-heróis, ninjas, feiticeiros, qualquer coisa! A frustração vem quando eu desligo. Eu desligo e de repente controlo o que? Um menino que vai mal em matemática e apanha na escola? Isso é horrível!
            - Ah, qual é. Você pode usar sua imaginação. Ainda tem muito tempo para brincar. – A Cineasta tentava confortar o garoto desolado.
            - Eu imagino as coisas e brinco com meus amigos, mas brincadeiras acabam assim como os jogos. Confesso que estou tentando me ocupar para não pensar nas armaduras que meu comandante espacial vai usar!
            A Cineasta parou por um tempo.
- Relaxa. Você só está um pouco viciado, isso é normal. Mas é melhor tomar cuidado para não misturar ficção com realidade.
Ela terminou seu cappuccino e se despediu dos amigos.

Quando todos começaram a ir embora, o Artista se sentou ao lado de seu pequeno amigo e disse:
- Sabe... Você deve ser forte nessas horas, Ottis.
O menino olhou com olhos arregalados para o jovem artista, que continuou.
- Você precisa ser forte por que... – Uma lágrima quase lhe correu o rosto. – Por que um homem só pode ser feliz de verdade na vida se tiver uma das três coisas: Uma nave espacial, Um robô gigante ou super poderes...
Ottis ficou desolado.
- Sinto muito amigo, mas essa frustração nunca vai sumir.
E lá ficaram os dois tentando esquecer tudo que estavam perdendo enquanto eram humanos normais em um mundo normal.

"Sabe... Você deve ser forte nessas horas, Ottis."

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Não Pertence


            Muitos podem ser atraídos para um restaurante chique, para um boteco de esquina ou, como em muitas vezes, são atraídos por um singelo e bonito café em uma esquina de duas ruas não muito conhecidas. Diversidade era uma palavra comum entre a clientela quando o movimento estava em alta no estabelecimento. Era possível ver os mais diversos grupos de pessoas se relacionando sentadas em suas cadeiras confortáveis, diante de mesas pequenas ou médias enquanto bebiam cafés, chás ou refrigerantes.
            Geléia estava arrumando as bebidas nas prateleiras atrás do balcão quando, em meio ao burburinho, ouviu a porta se abrir, dando origem a um novo cliente. Era um mulher meio baixa, com cabelos pretos e olhos levemente amendoados e não era do tipo que chamava atenção em meio a uma multidão. Ela se movia normalmente até o balcão, passando assim por mesas que continham de tudo, desde jogadores de videogame viciados, até metaleiros e também dando uma entrada nos góticos leitores de poesia, terminando no grupo que praticamente só ouvia MPB. Ela se sentou ao balcão e, depois do costumeiro “Boa tarde” fez o seu pedido para Geléia, que atendeu rapidamente.
            Enquanto ela bebericava um pouco da soda italiana, ela olhava para os televisores e de vez em quando para os grupos que estavam dividindo o local com ela.
            - Você tem uma clientela bem variada aqui, senhor. – Ela disse olhando com um sorriso para o gerente.
            - Ah, sim. Gosto do fato de todo o tipo de gente vir aqui.
            Enquanto eles conversavam, alguém deu um grito agudo nas mesas lá atrás. Era alguém tentando expressar harmonia, mas só conseguiu dissonância.
            - Cara, não me conformo com esses tipos... – Ela disse mexendo a cabeça em movimento de negação e voltando seu olhar para a madeira no balcão.
            Geléia riu.
            - Alguns reclamam. Mas também reclamam dos góticos ali e dos rapazes do MPB que as vezes vem aqui. – Fez uma pausa – Alguns sambistas as vezes recebem uns olhares nervosos. – Riu mais uma vez e continuou servindo pessoas no balcão, mas sempre junto da cliente para ouvir o que ela queria falar.
            - Sabe... Eu já fui de muitos grupos ao longo da minha vida. – Bebeu mais soda. A bebida desceu refrescante e saborosa por sua garganta levemente seca. – Quando eu era mais nova eu poderia dizer que pertencia àqueles ali – Apontou para os góticos. – Quando somos jovens achamos que o mundo está contra nós e que nada vale a pena. Então queremos ser diferente e dizer ao mundo que sua dor é muito maior que a de todos presentes no planeta. Aí você escreve textos depressivos e ouve musicas cabisbaixas e anda com uma cara de morto que faz com que todos se afastem.
            Geléia fazia apenas murmúrios aprovando que ela continuasse a história.
            - Mais tarde percebi que a vida poderia ser muito divertida com meus amigos e comecei a ouvir muita música pesada. Íamos juntos a shows, festas e ficávamos muitas horas na rua sem fazer nada, só ouvindo musica e jogando conversa fora. – Olhou para trás então. – E sempre tem aquele seu amigo que acha que canta muito e solta gritinhos como esse...
            O gerente estava se divertindo com o jeito da cliente falar.
            - É complicado! – Ela disse rindo. – Eu gosto de musica pesada, mas não preciso gritar para o mundo que eu gosto disso usando camisetas de banda e essas coisas. E eu gosto de jogos de RPG, mas ei! É necessário agir como se eu acreditasse mesmo que sou um Guerreiro Dragão? E quanto ao pessimismo de ser gótico... Você pode fazer terapia e pronto, não precisa ficar dizendo “Ai de mim!” por aí. – Terminou sua soda e concluiu o raciocínio. – Enfim... O que percebi nesses anos é que eu não pertenço a nenhum dos grupos das coisas que gosto...

            Passado um tempo e conversas jogadas fora, a cliente pagou sua conta e se levantou. Pegou a bolsa, a colocou no ombro e segurou o casaco na altura da barriga. Se despediu do gerente, mas logo se virou e perguntou:
            - Você é o Geléia ou o nome do café é simbólico?
            - O nome é por causa do meu apelido, na verdade – disse sem graça.
            - Gostei daqui! Acho que vou voltar mais vezes.
            - Fico feliz que tenha gostado, senhorita... ? – Deu espaço para a moça responder seu nome.
            - As pessoas me chamam do mesmo jeito desde a época de gótica. – Riu e disse com um pouco de vergonha. – Skulz.

"Sabe... Eu já fui de muitos grupos ao longo da minha vida."

sábado, 31 de março de 2012

Relacionamentos


            Amor. Sentimento este que permeia a essência da alma humana. Todo ser humano, incluso o Gótico, tem uma capacidade, por mais que pífia, de amar. Ver casais apaixonados é uma coisa muito comum quando se anda muito por aí. O amor está em todos os lugares, como pode ser percebido até pelo mais leigo dos seres humanos. No momento, um leigo ser humano conhecido por ser um artista, estava percebendo o sentimento no ônibus que se encontrava no momento.
            Chegou a uma conclusão. A conclusão era que aquilo o irritava. Quando se está sozinho em seu canto e tem, pelo menos, dois casais no mesmo ambiente, parece que todos no local estão mais felizes e apaixonados e que a vida deles é muito mais legal do que a sua. Enquanto são trocados carinhos e beijos começam a se tornar audíveis as risadinhas, os comentariozinhos e um monte de coisas começam a ficar no diminutivo com vozes agudinhas. O caminho até o Café nunca foi tão desconcertante e era difícil manter o foco e tentar escrever algo ou simplesmente produzir uma imagem na cabeça. Quando finalmente chegou no ponto em que descia, o Artista andou pelo corredor de olhos virados ao passar pelos casaizinhos e quando por fim saiu do veículo bufou como se estivesse prendendo a respiração durante todo o tempo que passara lá dentro.
            Foi então que era perceptível que, se a vida fosse um filme, um “Zoom” ocorreria agora. A câmera viria desde o balcão para se fixar rapidamente nos olhos, agora esbugalhados, do Artista. Hoje devia ser o dia que os deuses tiraram para mexer com ele. Mais casais haviam se alojado no Café e estavam sempre juntinhos e abraçadinhos enquanto tomavam bebidas quentes da mesma xícara. Ele fechou a cara e foi em direção a sua mesa costumeira, mas ao chegar lá percebeu que ela estava ocupada pela Cineasta Desacreditada. O coração do Artista quase parou, então. Tentando manter a postura e fingir que nada estava ocorrendo em sua mente, ele tentou se desviar do possível campo de visão da Cineasta, fazendo assim com que ela nunca percebesse que ele por ali passou e ele então poderia buscar uma mesa solitária ou um lugar ao balcão. Não conseguiu. Ela o viu antes de qualquer movimento, o convidou para se sentar e ele, ainda de cara amarrada, aceitou relutantemente.
            Muitas pessoas já estiveram em montanhas russas. As que não estiveram deveriam ter ido pois é uma ótima experiência e também é parecido com o que acontecia agora na cabeça do Artista. Sua atenção ficava em subidas e descidas. Uma hora ele ouvia o que a Cineasta falava, outra hora ele simplesmente pensava no como os olhos dela eram bonitos. Uma hora ele quase lançava um comentário com uma risada sem graça e em outra hora ele simplesmente tinha a impressão de que o sorriso dela brilhava como o sol. Até que durante a conversa:
            - Pô... Hoje tem muitos casais aqui, hein? Haha, isso me lembra uma vez quando eu estava com Skulz...
            - Skulz? – Perguntou o Artista num salto.
            - Um pessoa que conheço. Enfim... – Ela continuou.
            O mundo do Artista desabou. Tudo trincou, ficou preto e branco e o tempo parou. A voz da cineasta continuava falando como uma assombração bem diante de seu cérebro debilitado, mas ele logo a desligou, adicionando ao mundo cinza uma interferência. Quem era esse Skulz? O que eles já passaram juntos? Por que ela lembrou dele justo agora? O que estava acontecendo!? De repente, o cérebro auto-defensivo do Artista tomou uma decisão brutal e o obrigou a dizer:
            - Eu não consigo me concentrar com você falando... – Ele arregalou os olhos e ficou vermelho. Não queria dizer aquilo, então voltou sua atenção para a folha em branco a sua frente que, no momento, era mais compreensível que o mundo.
            - Beleza! Só queria puxar um assunto, mas fica aí na sua, cara!
            Ela se levantou e foi sentar ao lado do Velho para jogar xadrez e passar um tempo com Viras.

            No balcão ao longe, Geléia começou a rir baixinho enquanto organizava seus copos artesanais e promocionais. Menino Ottis estava trocando cartas de jogo com Thelma quando viu o Artista e a Cineasta se desentenderem.
            - O que aconteceu, Geléia?
            Ele respondeu rindo:
            - Alguém está apaixonado e agindo como tal.
            - Eles deviam namorar! – Disse Thelma de repente.
            Menino Ottis a olhou incrédulo e depois olhou para o amigo Artista sentado em seu canto.
            - Ele é idiota mas nem tanto, Thelma.

"O mundo do Artista desabou. Tudo trincou, ficou preto e branco e o tempo parou."

quarta-feira, 21 de março de 2012

Herói


            “Ah! O início da jornada!” Bradou o Conde em sua mesa, tomando para si a personalidade de um verdadeiro trovador. Romântico, audacioso, de fala rápida e sagaz. Alguns diriam que quase ardiloso, mas com a eloquência de um bardo e o carisma de um líder ele prosseguiu para contar alguma epopeia grandioso para os que estavam naquele momento no Café do Geléia.
            O Conde tinha uma força de personalidade que podia abalar, inflamar e até sobrepujar as almas de seres humanos próximos com suas palavras tão bem ditas e encaixadas em frases quase épicas. Ele continuou seu discurso segurando junto ao corpo um caneco, desta vez com hidromel, e movendo a outra mão para aumentar mais ainda a história que iria se seguir.
            “A jornada deste herói será algo trágico e belo, eu vos digo! O papel do herói é sempre estabelecido em nossas mentes e sabemos que ele é destinado para algo. Mas o que importa, como em toda boa história, não é o final, mas sim o caminho para esse destino tão esperado!” Bebeu um pouco do líquido do caneco deixando um fio bem fino escorrer pelo canto da boca fazendo a barba brilhar sob as luzes que davam a ambientação de uma taverna.
“Veremos, então, na jornada que se segue, os perigos e desafios que se colocarão à frente de nosso protagonista. Estes desafios, não meros encontros de sorte e azar, são na verdade o veículo de evolução do herói! Pois como todos sabem, a maior característica destes protagonistas é o fato de eles virem de um histórico social simples, humilde e imperceptível aos olhos dos líderes de sua terra.” Ninguém interrompeu o Conde por mais que pudesse. Todos faziam silêncio ao assistirem o homem que estava agora, como sempre, em cima de sua cadeira fazendo seus atos como um verdadeiro artista de teatro. Os clientes o olhavam como tal.
            “Ele sairá de sua atual vida por muitos motivos! O desejo incontrolável pela viagem sempre existe. O desejo de ver terras novas e conhecer as culturas e suas práticas é algo que existe neste herói desde seu nascimento, e este é um dos maiores motivos pela sua aventura, por mais que ele não o admita. Existe também a ameaça a tudo que ele julga precioso e querido em sua humilde vida. E aí vemos a eterna batalha do bem contra o mal! Nosso herói passa de simples viajante vindo de um pequeno assentamento humano para um campeão da virtude e portador da glória!” Algumas lágrimas eram visíveis em certos rostos para quem parasse e olhasse. E mais um gole era lançado garganta abaixo pelo nosso escaldo.
            “A jornada também será exemplo de tragédia, como antes dito! Pois o nosso campeão sabe que suas escolhas exigirão sacrifício, e que esses sacrifícios permearão sua alma por toda a eternidade.” Fechou os olhos por um período e todos esperavam a conclusão que devia se seguir pelo tom de voz usado. O Artista Solitário era o único que parecia impaciente com a coisa toda. Por fim se seguiu em tons melódicos: “Mas são estas escolhas e a coragem de seguir em frente que tornarão o nosso personagem aqui dito, o herói da história e alguém que será celebrado por suas escolhas, lutas, perdas e lágrimas... Aos heróis que antes deste vieram!” E ergueu sua caneca, fazendo todos brindarem ao momento. Era uma noite grandiosa.

            Depois dos aplausos e choros terminarem, o Conde se sentou de volta à mesa onde o Artista, a Cineasta, Menino Ottis e K.D. esperavam. Por fim, o Artista disse depois de tentar acalmar os nervos:
            “Você vai ser o Clérigo ou o Paladino afinal?”
            K.D. começou a brincar com as miniaturas.
            “Serei o líder relutante, porém magnífico em sua majestade. Inspirarei medo nos...”
            “Corta essa!” gritou a Cineasta. “Paladino, então?” Disse irritada.
            “Sim. Paladino.” Disse o Conde com um sorriso triunfante.

“Ah! O início da jornada!”

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Velho


            Vazio. Era como estava o Café naquela noite. As mesas, cadeiras, xícaras, bancos, todos estavam vazios. Qualquer um que passasse por lá poderia quase esperar um bredo-do-deserto passando pelo ambiente como naquelas cenas de filmes de faroeste durante um duelo mortal. Mas, como todos sabem, nunca algo está completamente vazio e, sendo um estabelecimento publico e de boa reputação, o café estava habitado somente por Geléia, Helen e o Velho.
            Geléia e Helen estavam apoiados no balcão. Helen tomava o seu café de sempre enquanto Geléia mexia para cima e para baixo o sachê que deixaria sua água quente com gosto de mel fazendo assim o famoso chá. Seus olhos fitavam o nada e ele estava com uma cara que expressava a mesma coisa. A televisão estava ligada, mas estava no mudo enquanto passavam desenhos animados que não cumpriam o papel de divertir o publico. A jukebox estava em um volume bem baixo, quase não atingindo os ouvidos de ninguém. Helen olhava o próprio reflexo em seu café e batia as unhas de leve na xícara que exalava um vapor leve que estava, lentamente, se esvaindo.
            A mulher começou a olhar para os lados e, depois de dar um gole leve na bebida, disse:
            - É...
            Geléia, ainda olhando para o nada, respondeu.
            - É... – E suspirou.
            E ali ficaram, naquele silêncio da falta de assunto por mais ou menos dois minutos. Helen então quase teve uma epifania. Percebeu que, em todos os anos que conhece o Geléia como gerente de café, ela nunca soube a origem do Velho. Sua mente então foi atacada por dúvidas. Quem era o Velho? O que ele fazia sempre por lá? Por que ele sempre tinha o sorriso estampado no rosto enrugado? E como certas pessoas se sentiam melhor depois de alguma conversa filosófica com ele?
            - Geléia? – Arriscou por fim.
            - Hm? – Seus olhos arregalaram, mas ainda fitando o nada, de um modo quase catatônico.
            - Qual a história do velho?
            Geléia acordou de seu torpor e olhou para o senhor. Ele estava sentado em seu canto, mãos na velha bengala artesanal e olhava para a porta com um sorriso. O gerente não conseguiu não sorrir ao olhá-lo. O Velho tinha esta estranha aura, algo quase místico, que o cercava. Todos o cumprimentavam dizendo “bom dia” ou “boa noite”, dependia do horário. Ele era quase que como um enfeite do lugar e todos concordavam que ele combinava perfeitamente com o conjunto.
            - Sabe que... eu sinceramente não sei? – Disse Geléia com um ar confuso enquanto levantava uma única sobrancelha. – Sei que já fizeram histórias sobre ele aqui... Alguns dizem que ele é o ultimo bom ser humano da terra. Alguns dizem que ele é imortal. Já ouvi gente dizendo que ele é Deus em pessoa... Eu acredito que ele seja um ótimo cliente. – Geléia parou e pensou um pouco olhando para os cantos do estabelecimento – E também é um bom enfeite...
            - Não chame o Velho de enfeite! – As palavras foram seguidas de um tapa no braço do gerente - Achei que você conhecesse todos os seus clientes... – Helen bebeu mais um pouco do café e olhou para o velho que acenou jovialmente para ela.
            - Ei, ele já estava aqui quando comprei o lugar! E ele sempre fica quando vou embora. Mas acredito que o mais importante seja o fato de que, quando eu o cumprimento com um aperto de mão, sempre acho dinheiro no meu bolso...
            E ali ficaram os dois amigos, conversando sobre os mistérios do “Negro Místico” local enquanto ele sorria para o nada, como se a vida fosse algo que ele conhece de trás para frente.

            Dado algum tempo, Geléia começou a fechar o café e como de costume, o velho ainda estava lá, dessa vez com Viras ao seu lado. Momentos depois, o gerente foi ao banheiro antes de começar a apagar as ultimas luzes. Enquanto estava lá, o Velho se levantou sorrateiramente como um verdadeiro bandido e escorregou um pouco de dinheiro para dentro do bolso do casaco do Geléia, que sempre ficava perto da porta. Viras o olhou virando a cara e com as orelhas para frente.
            - Deixe-o continuar acreditando na magia, garoto.
            E sorriu enquanto se sentava de novo.

"Qual a história do velho?"