O "Café do Geléia", fundado por Giovanni Di PaZZo, começou como um pequeno café na esquina da rua Orlontis com a rua Coronel Verde. Servindo apenas poucas variações do simples café o lugar foi ganhando fama devido ao seu ambiente altamente aconchegante contendo fotos de viagens feitas pelo "Geléia" (apelido carinhoso de Giovanni), relíquias e artefatos adquiridos em suas diversas aventuras pelo mundo em busca do melhor café que existia. Certo ano, Giovanni conseguiu por métodos misteriosos o melhor café que os que ali passavam já haviam provado e começou a plantá-lo e serví-lo em seu pouco famoso "Café do Geléia". O lugar ganhou fama pelo seu café fabuloso e pelo ambiente que sugeria um conto de histórias entre amigos. Agora vivemos estas histórias... Bem vindos ao "Café do Geléia".

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Emprestado


            Um objeto que boa parte das pessoas tem é uma prateleira. Como o nome implica, ela foi criada provavelmente para se colocar prataria, mas todos preferimos usá-las para colocar de forma ordenada (ou não muito) bonecos, porcelana, eletrônicos, troféus... Mas principalmente gostamos de usá-las para depositar livros.
            Qualquer pessoa que gosta de ler sabe que nada se compara ao cheiro de um livro novo, aquele cheirinho de livraria, o aroma que sai delicadamente do livro conforme o folheamos sem motivo aparente. A cena vista ao entrar em uma grande biblioteca, com seus pilares e paredes de livros, é algo de emocionar o bom leitor. E voltando ao aroma, até mesmo aquele aroma de livro velho encontrado em sebos é cativante! Pode perguntar para qualquer um que goste de livros e ele não irá negar. Mas um bom livro não merece ficar apenas na prateleira.
            Geléia adorava colecionar livros e mantinha um olho muito atento naqueles que ficavam disponíveis em seu café. As pessoas vinham pegavam um de alguma das pequenas prateleiras dispostas no local, se sentavam confortavelmente com seus cafés e liam até a hora de ir embora. Certa vez, quando estava limpando o local, percebeu que faltava um único livro. Olhou para os clientes e viu que nenhum tinha o que estava faltando, logo começou a estranhar. Ele não era de emprestar livros e sua confusão começou a crescer.
            - E aí, Geléia! – Falou a Cineasta, que entrava pela porta.
            Geléia só continuou pensativo com seu livro.
            - Tá tudo bem, cara? – Ela perguntou preocupada. – Cê tá meio pálido...
            Ele a olhou devagar e respondeu:
            - Desculpe, querida, mas é que estou meio confuso. Não acho um de meus livros...
            Ela olhou para a prateleira e sorriu.
            - “O Forte Sangrento”?
            - Esse mesmo! – O gerente parecia empolgado.
            - Você me emprestou, cara! Relaxa!
            Ele ficou mais aliviado, mas ainda estava um pouco apreensivo pois as pessoas tinham o costume de dobrar as capas de livros para trás, estragando toda a lombada.
            - E já terminou de ler? – Ele se aproximou para perguntar e não conseguiu esconder um pouco de medo em sua voz.
            - Sim! - Ela estava pendurando o casaco em uma cadeira.
            - Gostaria de tê-lo de volta...
            A Cineasta ficou pálida por um segundo e logo foi tomada por uma vermelhidão. Sua cara estava quente.
            - Ah, é... Certo, eu vou te... Hum, Posso talvez, é...
            Ela não fazia sentido. Geléia a encarou de forma dura. Depois de um suspiro ela cedeu.
            - Ah, tá legal...Eu emprestei para uma amiga, ok?
            Pânico.
            O Gerente arregalou os olhos. Se ele fosse asmático com certeza pegaria sua bombinha agora, mas ele conseguiu manter a calma correndo o mais rápido que podia em direção a cozinha e tomando, em apenas um gole, um grande copo de água. Voltou para a Cineasta.
            - O que? – Disse calmamente.
            Ela começou a ficar apavorada.
            - Eu emprestei... Foi mal...
            - Ela cuida bem dos livros?
            - Nunca vi as lombadas destruídas, se é o que quer saber.
            Geléia fez um barulho leve com a garganta que a Cineasta entendeu como uma leve reprovação e então se sentou em seu lugar.
            - Acho que você precisa ficar sozinho por um tempo. – Sugeriu para o amigo gordo.
            E ele voltou ao seu trabalho.

            Quando começou a chegar a fim da tarde Geléia, agora calmo, se dirigiu até a Cineasta com um cappuccino fresquinho para ela. O depositou na mesa e ficou ali parado.
            - Desculpe se fiquei nervoso, minha querida.
            Ela voltou seus olhos para ele e sorriu.
            - Tudo bem, imagino como se sente. Eu tenho filmes que não empresto. Mas relaxe, ela cuida bem dos livros. Garanto.
            Geléia sorriu de olhos fechados e ao começar a se dirigir para longe da mesa disse:
            - Se ela os ler... Com certeza os trata melhor do que eu.

"A Cineasta ficou pálida por um segundo e logo foi tomada por uma vermelhidão. Sua cara estava quente."

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Duelo


            Todos estavam olhando. A expectativa sobre ele era grande e isso fazia com que ele se sentisse absolutamente pressionado. Eles deviam parar pois fica difícil se concentrar nessas circunstâncias. Por um segundo sua dúvida, enquanto se reerguia e tentava ajeitar as costas, foi: Eles deviam parar? Ou eu deveria parar de ligar para os meus arredores?
            Enquanto pensava também lembrava do que fora ensinado e, logo, corrigiu sua postura. Pelo menos ela estava correta. Ele ouvia o instrutor lhe dando advertências mas não conseguia entender muito bem, pois o capacete estava quente e estava quase apertando seu cérebro, tornando audível a circulação de seu sangue.
            Tum-Tum.
            A batida do coração era seu foco no momento. Tum-Tum e mais nada. Ele não queria ouvir os expectadores e nem seu próprio instrutor, ele queria sentir. Queria sentir a batida e se reposicionar no mundo, se concentrar e se lembrar de tudo que fora ensinado.
            Tum-Tum.
            Tentou se posicionar melhor. Joelhos flexionados, costas eretas, mão esquerda erguida.
            Tum-Tum.
            Posicionou melhor os pés, testando o equilíbrio e a força em seus joelhos. Estava no duelo há muito tempo e podia sentir o corpo cansado e o suor parando em sua sobrancelha.
            Tum-Tum.
            Ergueu melhor a mão esquerda distribuindo com mais eficiência o equilíbrio de seu corpo. Levantou o braço direito em posição de estocada. Os batimentos o lembravam que as mãos também suavam e parecia que seu florete cairia a qualquer momento, e por mais que as luvas impedissem isso de acontecer ele ainda se sentia desconfortável.
            Tum-Tum.
            Fechou os olhos.
            Se imaginou na sala em que estava, mas escura. Ele usava branco. Na escuridão pressentiu que o inimigo se aproximava e, como em um filme em câmera lenta, a ponta do florete veio em direção ao seu rosto. Desviou com sua própria arma e mexeu rapidamente os pés, quase que saltando para a direção oposta de seu inimigo. Naquele momento ele pôde analisar cada golpe, cada movimento, cada desvio, cada falha na tática de seu adversário.
            Quando abriu os olhos ainda estava parado e não ouvia mais a sua circulação. Tudo havia voltado ao normal e ele estava ouvindo os comentários e a motivação da plateia. Seu inimigo estava exatamente onde ele havia visto. Sua posição estava correta e ele estava pronto, quase que arrogantemente confiante. Enfim lançou:
            - Vai ficar parado aí o dia todo? – Um sorrisinho foi esboçado por debaixo do capacete.
            O inimigo avançou e, como tinha visto antes, parecia que tudo estava em câmera lenta. Sua preparação funcionou e ele podia ver todos os golpes milissegundos antes de acontecerem. Terminada a investida do adversário, ele fez seu avanço. Estocada, investida, bloqueio, desvio, balanço e finalmente a investida que garantiu seu sucesso. Todos paralisaram. Depois, seu inimigo começou a aplaudir e a plateia o acompanhou. Ele decidiu abaixar seu florete e se juntar ao aplausos. Os dois duelistas estavam rindo juntos e a vitória ficou clara.

            O Conde tirou seu capacete e foi cumprimentar seu professor de esgrima.
            - Obrigado, milorde! Sem vossa valorosa força de vontade em me ensinar, jamais teria vencido tal batalha!
            Seu professor riu e tirou o capacete também. Coçou a barba enquanto ria e disse:
            - Foi um prazer duelar com você! É com certeza um de meus melhores alunos.
            O Conde fez reverência.
            - Que tal comemorarmos com o resto da sala? – Convidou o professor.
            Parou por um segundo, pensou e sorriu para seu mestre.
            - Se quer comemorar, conheço um ótimo lugar que acabou de reabrir.

"Tentou se posicionar melhor. Joelhos flexionados, costas eretas, mão esquerda erguida."

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Surpresa


            O Artista estava entediado. Durante as ultimas semanas ele ficou passeando de café em café, procurando algo que chegasse pelo menos ao pés do, atualmente fechado, Café do Geléia. Nada o convenceu. O café não tinha o mesmo gosto e por mais que ele gostasse de ficar sozinho em seu canto, tinha alguma coisa no café que era diferente.
            De lugar em lugar, de mesa em mesa, sempre havia algo errado. Se sentava sozinho, a inspiração não lhe ocorria e, no máximo, se sentia apenas sozinho demais. As vezes tinha a impressão de que fazia, sem querer, uma cara de criança pedindo por amigos. Quando pensou nisso a primeira vez se lembrou imediatamente do Menino Ottis perambulando pelo café com seu refrigerante, ou tentando filosofar com Diego, o único do Café que tinha uma mentalidade parecida com a sua (Mentalidade esta que o Artista compartilhava, mas não admitia).
            De xícara em xícara, de sabor em sabor, sempre tinha algo diferente. Mas nada bom. Ninguém parecia capaz de lhe preparar um café gelado com chantilly e cobertura de caramelo que se igualasse ao do Gelaccino do Café do Geléia. E onde mais o Artista poderia ter a honra de dizer que o nome foi dado por ele? Nenhum lugar tinha uma bebida onde ele levava créditos. Esta era uma frustração que ele com certeza teria dividido com a Cineasta Desacreditada. Ela lançaria algum comentário sarcástico e os dois ririam das próprias desgraças como “Artistas Famintos”. Depois ele pararia de ouvir o mundo para olhar o sorriso com aparelho dela.
            De ambiente em ambiente, de musica em musica, o aconchego era outro. Confortável sim, mas não o suficiente...Faltava algo, faltavam as pessoas certas. O Artista tinha saudade dos três pilantras com Ernesto fazendo planos enquanto Tremoço e Diego interpretavam cada um de sua maneira. Helen conversava com a Cineasta enquanto ao fundo a gangue do Ottis ria com alguma coisa infantil enquanto K.D. enfeitava a mesa com algum capacete diferente. Era estranho você simplesmente chegar na porta de um Café sem ser recebido pelo Viras, mais estranho ainda era um Café sem um constante arrepio na espinha, em certas noites nevoadas, por causa da presença misteriosa do Gótico que, muito provavelmente, estaria na mesma mesa do Conde.
            Mas o pior de tudo, era não ser recebido pelo seu grande amigo no lugar que era seu sonho. Geléia era um amigo muito especial na vida do Artista e o dia-a-dia sem ele era, no mínimo, esquisito e tedioso.
            Em meio as suas andanças por cafés, o Artista decidiu voltar ao local que fora fechado. Tinha certeza de que estava andando mais rápido do que o normal até seu objetivo enquanto ouvia musica alta para ignorar o mundo a sua volta julgado inútil. Andou um bom tanto e chegou ao local. Estava igualzinho a ultima vez que o viu, impecável e expressava um ar de conforto e aconchego. Seu santuário. Se aproximou, olhou pelo vidro e viu o que esperava. O Velho ainda estava lá, do jeito que o Geléia tinha deixado, e o Artista não pode conter um sorriso, principalmente quando, vindo da esquina, chegou Viras, todo cabisbaixo. O Artista se sentou à porta com um ar desolado, mas esperançoso e lá ficou. O cão sentou ao seu lado enquanto recebia carinho e os dois adormeceram no local, como crianças fazem ao esperar papai noel.

            O Artista acordou num salto ao ouvir a porta abrindo e se levantou com uma rapidez que o impressionou. Corrigiu sua postura e olhou para trás para ver o que tentara abrir a porta.
            - Desculpe se o assustei, artiste. – Disse Geléia, com aquele sorriso jovial de sempre no rosto. Ele estava parado à porta, usava um chapéu e tinha um bronzeado novo.
            O Artista quase chorou de emoção e abraçou o velho amigo.
            - É bom vê-lo de novo, Geléia! – Eles se abraçaram.
            - Eu disse que era temporário, garoto, mas... Ninguém acredita, por melhor que seja seu discurso.
            Os dois ficaram parados à porta por um tempo até que Geléia arriscou:
            - Agora... Sendo meu primeiro cliente, que tal um Gelaccino e alguns pães de queijo?
            - Achei que nunca fosse perguntar!

"Corrigiu sua postura e olhou para trás para ver o que tentara abrir a porta."

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Férias


            Finalmente estava fazendo um pouco de frio. Ainda não era o frio desejado pelas pessoas que gostam dele, mas era um frio onde as pessoas poderiam tirar blusas do armário e cachecóis das gavetas, se assim quisessem. Gorros também poderiam ser bem vindos. Em meio a pessoas reclamando da temperatura e do céu nublado andava o Artista, levando consigo seu caderno e indo em direção ao lugar mais aconchegante que conhecia.
            Chegando ao local, o rapaz viu pessoas paradas na porta de entrada. Algumas olhavam dentro e depois iam embora, outras passavam reto, mas os clientes mais fiéis estavam parados na porta como que esperando algo. O Artista se aproximou e perguntou para a Cineasta:
            - O que está acontecendo? – E olhou para dentro do Café vazio.
            - A placa na porta diz “Fechado”, cara... Mas o Geléia nunca fecha nesse horário... – Respondeu ela enquanto tentava esquentar as mãos esfregando-as.
            - Sim, este é o horário que todos saem do trabalho e querem um café... – Disse Tremoço, que trazia consigo um rolo de corda no ombro e uma picareta em uma mão. Diego e Ernesto tinham capacetes de segurança e pás.
            Durante as conversas sobre o que poderia estar acontecendo, Menino Ottis desceu de uma das vidraças e disse:
            - Ei, pessoal! O Velho está lá dentro, como sempre! Quem sabe ele não possa abrir para nós?
            Todos começaram a batucar no vidro tentando chamar a atenção do velho, que parecia dormir com o sorriso estampado no rosto. Ele não se moveu.
            - O Velho inútil deve ter morrido! – Disse Ernesto, emburrado. Diego o socou no ombro.
            Dado um tempo todos viram Geléia vindo dos fundos do Café. Ele usava um suspensório e chapéu. Se aproximou da porta envidraçada e abriu-a com a chave de um molho bem recheado.
            - Não viram a placa, pessoal? – Ele perguntou, mas logo deu espaço para eles entrarem. Geléia começou a colocar as cadeiras em cima das mesas.
            - O que está acontecendo, Geléia? – Helen se aproximou do amigo para fazer a pergunta.
            - Estou arrumando o lugar, oras.
            - Para ninguém? – Perguntou o viajante olhando em volta.
            Geléia suspirou. Depois de colocar mais uma cadeira em uma mesa ele lançou:
            - Estou fechando o Café.
            Caos. Tristeza. Depressão. O Gótico aparecera. Todos estavam em choque. Depois de mais um tempo arrumando o local, e percebendo o desespero de seus amigos, ele disse:
            - É por um tempo indeterminado. Estou precisando de umas férias...
            - Mas você adora trabalhar aqui!!! – Gritou Menino Ottis que estava com a cara toda espremida por causa das lágrimas. Geléia o abraçou.
            - Sim, eu adoro. E vou sentir saudades de todos vocês.
            - Então não vá! – Diego abraçou o gerente que tossiu pela força do ato.
            - Não podes abandonar seu cargo, ó Taverneiro! Tens um dever para com este seu grupo de amigos inigualáveis! – O Conde queria morrer de maneira Shakespeariana.
- Eu não sei para onde vou. Mas vou para alguns lugares. – Geléia ajeitou sua roupa – Vocês me proporcionam as melhores noites e as melhores histórias. Vocês tornam o cotidiano algo melhor. Vocês tornam este lugar o que ele é... Mas sinto que, no momento, como o contador de histórias que sou, preciso de histórias novas... Espero que entendam...
Menino Ottis o abraçou mais uma vez e disse:
- Boas férias, Geléia. Não se esquece de voltar, tá?
- Não esquecerei, garoto.
Helen disse para ele aproveitar ao máximo e que ele precisava mesmo de umas férias. A Cineasta disse para ele voltar com o máximo de histórias possível. O Conde lhe deu uma adaga de prata como um símbolo de boas aventuras e proteção na jornada. O Gótico lhe deu uma lágrima em um frasco e sumiu sem ninguém ver. O Viajante pediu ajuda com a bagagem emocional para sair do local. Os maiores pilantras do Café lhe pediram ouro Peruano, caso passasse pelo Peru.
- Lhes trarei um baú. – Disse o gerente, jovial como sempre.
Depois de todos se despedirem, o Artista veio para perto do amigo.
- Se tornou uma obrigação não é? – Disse por fim.
- O que? – perguntou Geléia.
O Artista gesticulou para o local.
- Isso tudo... Seu sonho se tornou um dever...
- É um motivo, devo admitir.
O Artista deu um pequeno sorriso e abraçou o amigo.
- Vou sentir muito sua falta, amigo...
Geléia não conseguiu conter a lágrima.
- Prometo que é temporário.
- Aproveite bastante, Geléia. Você merece. – Com isso, o Artista se virou e foi embora para a noite nublada.

            Geléia pegou sua mala, vestiu o casaco e pegou seu cachecol. Apagou as luzes e deu uma última olhada para o seu local. Seu santuário. Fez um último carinho em Viras e lhe assegurou que teria comida enquanto ele estivesse fora, pois pediu para um amigo cuidar dele. Pegou finalmente as chaves e foi fechar a porta.
            - Cuide bem do local para mim sim, Velho?
            O Velho fez um pequeno gesto com a mão. Geléia sorriu.
            - Prometo não demorar.

"Cuide bem do local para mim sim, Velho?"

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Necessário



            “Você viu minhas digitais em alguma evidência? Não? Foi o que pensei mesmo. Então aqui estamos, com você sem muito com o que me acusar e eu sem muito o que falar. Não vai conseguir nada de mim e dos meus parceiros pois não fizemos nada, então você pode pegar essa conversa de policial durão e enfiar em um lugar não muito convidativo, entendeu? A propósito... Se fizer algo com os meus amigos eu juro que arranco a sua pele com um estilete enferrujado e jogo ela para os seus próprios cães se refestelarem! E digo mais!”
            “Consegui passar de tela!” Bradou Diego, rindo.
            “Como assim? Parecia impossível!” Exclamou Tremoço, que se levantou de sua cadeira e foi correndo ver o jogo ao lado do amigo.
            Ernesto estava furioso. O café estava quase vazio, eles tinham conseguido o canto escuro onde Ernesto geralmente construía seus grandes esquemas e tudo que eles precisavam era ensaiar. Mas o grupo não estava cooperando. Diego parou de dar risadas, mas com um sorriso virou-se para Ernesto.
            “O que você estava dizendo?”
            Ernesto socou a mesa.
            “Eu estava simplesmente ensaiando o nosso plano combinado anteriormente!” Suas orelhas estavam quentes agora e ele começou a afrouxar a gravata.
            “Ah, sim!” Diego disse voltando a atenção para o computador portátil. “Mas já falamos sobre isso, lembra? Eu entro pelo portão 3. Com um alicate corto arames e o uso como arma em um dos guardas.”
            “É” Continuou Tremoço “Depois disso Serpente Dourada se encontra com Águia de Bronze no setor cinza. Armas em mãos. Está tudo decorado, Ernesto.”
            “Pensei que não usaríamos codinomes...” Disse Diego, pensativo.
            “Está tudo planejado e não usaremos mais codinomes! Se vocês prestassem atenção veriam que estou treinando o discurso que faremos quando formos pegos, mas vocês estão muito ocupados com bugigangas eletrônicas!” Sua cabeça poderia explodir agora mesmo “Pra que precisam disso afinal? Tremoço, você mal tem dinheiro pra tomar seus cafés mas faz questão de ter dois celulares!” o baixinho quase se levantou da cadeira. “E você, Diego! Você deve usar a mesma camisa desde a sétima série, mas gasta o dinheiro que não tem em joguinhos e computadorezinhos que parecem tabuas! E aqui estou eu! Fazendo todo o trabalho difícil tentando arrumar um trampo honesto para tirarmos uma grana!” Se sentou emburrado.
            “Honesto?” Diego espremeu os olhos na medida do possível com o design natural de seu rosto.
            “Ah! Vocês entenderam!” Ernesto se levantou nervoso e foi para o balcão esfriar a cabeça longe de seus amigos.
            Depois de um intervalo, Tremoço disse baixinho antes de tomar um gole de café.
            “É um celular e um rádio, ok?”

            Ernesto se sentou no balcão tirou o chapéu e começou a coçar a cabeça, como faz a maioria das pessoas irritadas. Geléia veio de fininho e disse:
            “Dia difícil?”
            “Com parceiros como aqueles são raros os dias fáceis. Você faz todo um plano para um rou... Para uma jogada de marketing perfeita e eles não agem de acordo com o plano!” Parou por um instante “Me dê um refrigerante, Geléia, por favor...” Abaixou a cabeça no balcão.
            “Precisa de muito dinheiro e rápido?”
            “Só o suficiente para uma televisão nova...”
            E de repente a resposta de Ernesto soou levemente esquisita em sua própria cabeça.

" “Consegui passar de tela!” Bradou Diego, rindo."

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Frustração


            Era noite. Uma noite agradável. Não estava quente, nem frio, o clima era ótimo para usar uma camiseta e calças sem reclamar de sequer uma peça de vestuário. Também era uma noite agradável para tomar um café naquele lugar de sempre, na esquina da Orlontis com a Coronel Verde, aquele lugar quase sempre movimentado em noites como esta.
            A música estava agradável como sempre e no balcão estavam os clientes mais clássicos conversando com o gerente que trabalhava enquanto fazia parte das conversas. Enquanto isso, na televisão, passava “RoboCop” e poucos estavam assistindo. Estavam mais entretidos com aparelhos eletrônicos e conversas do que com o filme altamente violento.
            - Cara, eu adoro esse filme! – Dizia a Cineasta enquanto virava um pouco do cappuccino morno para dentro da boca.
            - Ele não deveria ter motivação agora que não reconhece a mulher e o filho... – Disse o Gótico com a voz costumeira enquanto segurava um grande copo de absinto.
            - A motivação dele são as diretivas. Ele é uma máquina, oras! – Disse o Artista Solitário.
            - “Meio máquina. Meio Humano. Totalmente Policial” – Disseram a Cineasta e o Artista em uníssono, demonstrando seu conhecimento sobre o filme.
            A conversa sobre cinema e afins seguiu rumo e era perceptível a sabedoria cinematográfica de cada um dos ali presentes. Depois de alguns minutos de conversa, a porta abriu com um grande barulho e, se isso fosse um filme, a música pararia, todos olhariam para o portal de entrada e alguém deixaria cair o cigarro da boca. Nada disso aconteceu. Em vez disso, os clientes do balcão olharam para a porta e viram que Menino Ottis estava chegando pisando forte até o balcão. Ele tinha um videogame em mãos.
            - Refrigerante, Geléia. Não importa qual! Nada mais importa! – Disse enquanto se virava no assento voltando-se para o resto do café, dando as costas ao balcão. Todos se entreolharam e o Artista decidiu começar um diálogo com o pequeno amigo.
            - Perdeu no jogo, Ottis?
            - Não. – Ele disse sem tirar a atenção para com o nada. – Só estou frustrado.
            - Não consegue passar de tela? Odeio isso também! Uma vez eu... – Tentou dizer a Cineasta que foi logo interrompida por Ottis.
            - Eu passo de telas. Estou frustrado por que... – Seu refrigerante havia chegado e ele bebeu um gole. – Estou frustrado por que, olha só: Quando eu jogo videogames eu tomo conta de personagens... Eles podem ser piratas, comandantes de naves espaciais, super-heróis, ninjas, feiticeiros, qualquer coisa! A frustração vem quando eu desligo. Eu desligo e de repente controlo o que? Um menino que vai mal em matemática e apanha na escola? Isso é horrível!
            - Ah, qual é. Você pode usar sua imaginação. Ainda tem muito tempo para brincar. – A Cineasta tentava confortar o garoto desolado.
            - Eu imagino as coisas e brinco com meus amigos, mas brincadeiras acabam assim como os jogos. Confesso que estou tentando me ocupar para não pensar nas armaduras que meu comandante espacial vai usar!
            A Cineasta parou por um tempo.
- Relaxa. Você só está um pouco viciado, isso é normal. Mas é melhor tomar cuidado para não misturar ficção com realidade.
Ela terminou seu cappuccino e se despediu dos amigos.

Quando todos começaram a ir embora, o Artista se sentou ao lado de seu pequeno amigo e disse:
- Sabe... Você deve ser forte nessas horas, Ottis.
O menino olhou com olhos arregalados para o jovem artista, que continuou.
- Você precisa ser forte por que... – Uma lágrima quase lhe correu o rosto. – Por que um homem só pode ser feliz de verdade na vida se tiver uma das três coisas: Uma nave espacial, Um robô gigante ou super poderes...
Ottis ficou desolado.
- Sinto muito amigo, mas essa frustração nunca vai sumir.
E lá ficaram os dois tentando esquecer tudo que estavam perdendo enquanto eram humanos normais em um mundo normal.

"Sabe... Você deve ser forte nessas horas, Ottis."

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Não Pertence


            Muitos podem ser atraídos para um restaurante chique, para um boteco de esquina ou, como em muitas vezes, são atraídos por um singelo e bonito café em uma esquina de duas ruas não muito conhecidas. Diversidade era uma palavra comum entre a clientela quando o movimento estava em alta no estabelecimento. Era possível ver os mais diversos grupos de pessoas se relacionando sentadas em suas cadeiras confortáveis, diante de mesas pequenas ou médias enquanto bebiam cafés, chás ou refrigerantes.
            Geléia estava arrumando as bebidas nas prateleiras atrás do balcão quando, em meio ao burburinho, ouviu a porta se abrir, dando origem a um novo cliente. Era um mulher meio baixa, com cabelos pretos e olhos levemente amendoados e não era do tipo que chamava atenção em meio a uma multidão. Ela se movia normalmente até o balcão, passando assim por mesas que continham de tudo, desde jogadores de videogame viciados, até metaleiros e também dando uma entrada nos góticos leitores de poesia, terminando no grupo que praticamente só ouvia MPB. Ela se sentou ao balcão e, depois do costumeiro “Boa tarde” fez o seu pedido para Geléia, que atendeu rapidamente.
            Enquanto ela bebericava um pouco da soda italiana, ela olhava para os televisores e de vez em quando para os grupos que estavam dividindo o local com ela.
            - Você tem uma clientela bem variada aqui, senhor. – Ela disse olhando com um sorriso para o gerente.
            - Ah, sim. Gosto do fato de todo o tipo de gente vir aqui.
            Enquanto eles conversavam, alguém deu um grito agudo nas mesas lá atrás. Era alguém tentando expressar harmonia, mas só conseguiu dissonância.
            - Cara, não me conformo com esses tipos... – Ela disse mexendo a cabeça em movimento de negação e voltando seu olhar para a madeira no balcão.
            Geléia riu.
            - Alguns reclamam. Mas também reclamam dos góticos ali e dos rapazes do MPB que as vezes vem aqui. – Fez uma pausa – Alguns sambistas as vezes recebem uns olhares nervosos. – Riu mais uma vez e continuou servindo pessoas no balcão, mas sempre junto da cliente para ouvir o que ela queria falar.
            - Sabe... Eu já fui de muitos grupos ao longo da minha vida. – Bebeu mais soda. A bebida desceu refrescante e saborosa por sua garganta levemente seca. – Quando eu era mais nova eu poderia dizer que pertencia àqueles ali – Apontou para os góticos. – Quando somos jovens achamos que o mundo está contra nós e que nada vale a pena. Então queremos ser diferente e dizer ao mundo que sua dor é muito maior que a de todos presentes no planeta. Aí você escreve textos depressivos e ouve musicas cabisbaixas e anda com uma cara de morto que faz com que todos se afastem.
            Geléia fazia apenas murmúrios aprovando que ela continuasse a história.
            - Mais tarde percebi que a vida poderia ser muito divertida com meus amigos e comecei a ouvir muita música pesada. Íamos juntos a shows, festas e ficávamos muitas horas na rua sem fazer nada, só ouvindo musica e jogando conversa fora. – Olhou para trás então. – E sempre tem aquele seu amigo que acha que canta muito e solta gritinhos como esse...
            O gerente estava se divertindo com o jeito da cliente falar.
            - É complicado! – Ela disse rindo. – Eu gosto de musica pesada, mas não preciso gritar para o mundo que eu gosto disso usando camisetas de banda e essas coisas. E eu gosto de jogos de RPG, mas ei! É necessário agir como se eu acreditasse mesmo que sou um Guerreiro Dragão? E quanto ao pessimismo de ser gótico... Você pode fazer terapia e pronto, não precisa ficar dizendo “Ai de mim!” por aí. – Terminou sua soda e concluiu o raciocínio. – Enfim... O que percebi nesses anos é que eu não pertenço a nenhum dos grupos das coisas que gosto...

            Passado um tempo e conversas jogadas fora, a cliente pagou sua conta e se levantou. Pegou a bolsa, a colocou no ombro e segurou o casaco na altura da barriga. Se despediu do gerente, mas logo se virou e perguntou:
            - Você é o Geléia ou o nome do café é simbólico?
            - O nome é por causa do meu apelido, na verdade – disse sem graça.
            - Gostei daqui! Acho que vou voltar mais vezes.
            - Fico feliz que tenha gostado, senhorita... ? – Deu espaço para a moça responder seu nome.
            - As pessoas me chamam do mesmo jeito desde a época de gótica. – Riu e disse com um pouco de vergonha. – Skulz.

"Sabe... Eu já fui de muitos grupos ao longo da minha vida."