O "Café do Geléia", fundado por Giovanni Di PaZZo, começou como um pequeno café na esquina da rua Orlontis com a rua Coronel Verde. Servindo apenas poucas variações do simples café o lugar foi ganhando fama devido ao seu ambiente altamente aconchegante contendo fotos de viagens feitas pelo "Geléia" (apelido carinhoso de Giovanni), relíquias e artefatos adquiridos em suas diversas aventuras pelo mundo em busca do melhor café que existia. Certo ano, Giovanni conseguiu por métodos misteriosos o melhor café que os que ali passavam já haviam provado e começou a plantá-lo e serví-lo em seu pouco famoso "Café do Geléia". O lugar ganhou fama pelo seu café fabuloso e pelo ambiente que sugeria um conto de histórias entre amigos. Agora vivemos estas histórias... Bem vindos ao "Café do Geléia".

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Prodígios


            Crianças. Todos já fomos um dia. E sempre nos lembramos com muito gosto de todas as aventuras daquela época. Quando nos lembramos sempre damos risadas, sentimos saudades, lembramos de brigas, disputas e raivinhas infantis, mas desta vez com um sorriso no rosto, pois sabemos o quanto éramos inocentes e bobos. O problema é que, ninguém sabe aproveitar a própria época, então, para uma criança, ser criança é um saco. Para alguns, pelo menos.
            Gregório estava no Café do Geléia. Sentado em uma mesa qualquer, mal balançava os pés que não tocavam o chão enquanto quase afundava a cara em um livro que, para a sua idade, era muito grande. Geléia até pensou em perguntar o que o garoto estava lendo, mas, percebendo a concentração do menino, não quis atrapalhar. Além disso, ficou admirado com o tipo de leitura do garoto. Quando o garoto percebeu o gerente passando com cafés em uma bandeja, logo o chamou para perto.
            - Por favor, Geléia... Poderia trazer dois achocolatados com chantilly?
            Geléia memorizou o pedido e seguiu seu rumo. Microssegundos depois perguntou ao garoto o por que de dois achocolatados.
            - Estou esperando a Thelma... Combinamos de estudar hoje. – Explicou Gregório.
            O Gerente seguiu seu rumo e sorriu um sorriso simples que expressava admiração pela atitude dos meninos. Quisera ele ter esse tipo de disciplina quando mais jovem.
            Pouco tempo depois, quando Geléia estava trazendo as bebidas, Thelma cruzou a porta em passos rápidos e pouco espaçados. Ela estava com uma cara apertada e azeda, como se tivesse acabado de chupar um limao.
            - Boa tarde, Geléia. Obrigado! – Disse ela enquanto subia na cadeira e colocava os óculos sobre o nariz. – Deu uma olhada nos tópicos e exercícios que vamos estudar hoje? – Perguntou para Gregório enquanto abria seu caderno em cima da mesa.
            Ele respondeu com uma afirmação sonora sem nenhum entusiasmo e apoiou a bochecha na mão. Thelma suspirou e, mesmo tendo colocado os óculos a pouco tempo, os retirou e massageou entre os olhos.
            - Temos mesmo que fazer isso? – perguntou se apoiando na mesa.
            - Se quisermos manter nossas notas, sim. – Gregório quase fez um sacrifício para levantar os olhos em direção a sua amiga para responder tristemente.
            Os dois concordaram soltando um barulho de frustração enquanto voltavam seus rostos para os livros. Não mais do que de repente, a porta do Café se abre rapidamente e entram correndo o Menino Ottis e K.D., os dois rindo.
            - Rápido, Geléia! Precisamos de um cronômetro e barras de chocolate!
            Geléia foi até os fundos e voltou com um cronômetro velho, mas funcional.
            - Não sei o que pretendem fazer com isso, mas devolvam sim? E os chocolates, vocês sabem o quanto custam. – O sorriso parecia nunca deixar seu rosto.
            Os garotos compraram os chocolates e saíram correndo em direção à porta e só gritaram “Oi” para seus amigos enquanto saíam empolgados para a calçada. Gregório e Thelma olharam pela janela e viram K.D. erguer o capacete de Jiraiya até a altura da boca para engolir quase que imediatamente uma barrinha de chocolate. Depois Menino Ottis começou a rodá-lo rapidamente enquanto os dois riam. K.D. girou muito e quando parou, Ottis começou a cronometrar enquanto o amigo se esforçava para ficar em pé enquanto cambaleava. Muitas risadas e alguns segundos depois, K.D. vomitou no chão e se recostou em um muro enquanto tentava se recompor. Ottis gritou o tempo que o garoto aguentou.
            - Olha só aqueles dois... Poderíamos estar lá com eles. Acho que eu preferiria estar vomitando do que estudando para essa prova chata. – Lamentou Thelma passando a mão no vidro da janela.
            Gregório se ajeitou em seu assento e tentou soar como um herói:
            - Não podemos fraquejar, Thelma! Por mais que eu goste do Ottis, temos que admitir que, as vezes, o intelecto do nosso amigo é meio limitado. Nós somos muito mais inteligentes e as pessoas esperam muito de nós! Eu preciso tirar um 8 nessa prova ou a minha mãe vai me deixar longe de vocês por pelo menos três semanas...
            Thelma se sentou emburrada.
            - Odeio o fato de as pessoas terem expectativas em cima de mim... Sou só uma garotinha! Eu devia estar brincando de bonecas, comendo chocolates e vomitando... – Ficou pensativa. – Talvez não essa última, mas eu com certeza não deveria estar me preocupando em tirar um 7...
            - Enquanto formos melhores que o resto... Vamos ter que nos contentar com isso...
            E os estudos continuaram, enquanto ao fundo risadas e giros eram cronometrados.

            Depois de um bom intervalo de tempo, Ottis entrou no Café junto com K.D., um apoiado no outro. As risadas estavam diminuindo como um motor desacelerando.
            - Geléia! Dois refrigerantes, por favor!
            - Ottis, essa foi demais! Os resultados foram ótimos! – K.D. disse com orgulho enquanto se esparramava em uma cadeira.
            - Tenho certeza que a professora vai ficar admirada.
            Geléia veio trazendo as latas e logo perguntou do que os garotos estavam falando. K.D. prontamente respondeu.
            - Um pequeno estudo do efeito de velocidade crescente gerando força centrípeta. Não podemos explicar agora... estamos meio cansados...
            - Mas explicamos depois. – Interrompeu Ottis. - Temos que escrever um relatório para a professora mostrar ao diretor. Acabamos com as aulas de ciências, praticamente! – Os dois amigos se cumprimentaram.
            Em meio as mesas, Geléia pode jurar que Thelma derramara uma lágrima de frustração.

"Olha só aqueles dois... Poderíamos estar lá com eles."

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Hobby


            Todo mundo tem um hobby. Seja ele colecionar selos, escrever, ler, cozinhar, desenhar, etc. São diversas as atividades que um único ser humano pode exercer como hobby, aquela atividade prazerosa do pouco tempo livre que eles tem e algumas pessoas levam certos hobbies muito a serio, tornando eles uma profissão.
            O Artista Solitário tentava isso. Desde que começou a se dar por gente ele se lembra de desenhar e, naquela época, quando perguntavam o que ele queria ser quando crescer, ele sempre respondia o mesmo: Desenho animado. O tempo foi passando e ele foi aprendendo sobre esse mundo que ele tanto gostava e as ideias foram mudando, mas nunca saindo da mesma vertente de desenhista. Quando começou a trabalhar não começou diretamente na área, infelizmente, mas em pouco tempo conseguiu algo do tipo. Desde então ele tem trabalhado com livros. Percebeu que gostava muito de ilustração infanto-juvenil, além das ilustrações de mitologia, monstros, espada e magia que sempre desenhou.
            Mas no seu tempo livre o Artista gostava mesmo de ir ao Café do Geléia e desenhar sem propósito. Pegava pensamentos fugitivos e os transmitia para o papel branco. Com tinta preta pintava as sombras de seus sonhos enquanto a tinta colorida dava o contraste necessário para a vida aparecer em uma simples folha. A lapiseira dançava ao ritmo da criatividade e, nunca perdendo o timing, temperava a melodia primordial da criação fazendo a imaginação se avivar em semi-filmes independentes.
            Os que estavam de fora de toda essa ação viam apenas um rapaz solitário, quase com um ar de deprimido, em seu canto com seu caderno de rabiscos que parecia ser seu único amigo. Foi em um dia desses de desenhos que alguém interrompeu o Artista. Ele estava em seu canto tomando seu café e rabiscando o que lhe vinha à mente quando viu um homem entrar no café, um homem do tipo que não frequenta outro lugar que não um Starbucks ou coisa mais chique. Estava usando um sobretudo, cachecol e óculos escuros, o que era ridículo considerando o tempo nublado e o frio lá fora e ele entrou com um sorriso arrogante no rosto e uma sobrancelha levantada. O Artista o detestou.
            O homem foi até o balcão e pediu um expresso. Enquanto esperava tirou o cachecol e se virou de costas para o balcão, observando o movimento com aquele olhar de quem se acha muito superior ao resto do mundo. Não demorou muito para ele se deparar com o Artista e tentar observar o que ele estava fazendo. Decidiu se levantar e ir falar com o jovem rapaz, pois estava apreciando (pelo menos de longe) a qualidade do trabalho sendo feito.
            - Você tem talento, garoto! – Ele chegou já puxando uma cadeira.
            O Artista continuou seu trabalho e respondeu da maneira que achou mais sensata no momento:
            - Uhum.
            O sorriso do homem foi levemente abalado. Ele ajeitou o sobretudo e continuou depois de um leve pigarro:
            - Você já pensou em trabalhar com mídia publicitária? Publicidade está em alta, sabe?
            Se o Artista tivesse uma arma no lugar dos olhos, o homem estaria morto.
            - Não. Estes desenhos que faço são para mim.
            - Mas você é bom! Não acha que deveria mostrar sua arte para o mundo?
O rapaz suspirou, soltou a lapiseira, repousou o caderno e voltou seu olhar diretamente para os olhos obscurecidos do homem.
            - Eu já tenho um trabalho com desenho e quem quiser olhar, olha. Eu não gosto de publicidade e...
            - Mas você poderia ganhar muito dinheiro... – Interrompeu o homem.
            - Eu não estou nessa pelo dinheiro! – Ele logo cortou a frase do homem, fuzilando-o com o olhar. Os óculos do empresário trincaram.
            O expresso que ele havia pedido chegou e antes de Geléia coloca-lo na mesa o homem pediu a bebida para viagem. O gerente voltou ao balcão para atender o pedido.
           
            Com bebida em mãos, o homem se dirigiu à porta e disse para o Artista antes de sair:
            - Odeio ver jovens com talento desperdiçado como você.
            E saiu com o nariz empinado quase acertando o batente da porta.
            Geléia veio na direção de seu jovem amigo e perguntou o por que de ele ter afastado o homem daquele jeito. O Artista disse:
            - Pessoas como ele só pensam em dinheiro e não conseguem pensar como gente igual eu. Eles dizem que meu talento está sendo desperdiçado por que eu não ganho um monte de dinheiro com ele... – Ele pausou para tomar seu café e retomar seu caderno e lapiseira em mãos. – Mas na verdade, eu acredito que meu talento está sendo muito bem utilizado, por pessoas que apreciam de verdade o meu trabalho e principalmente – sorriu – por mim.

"Você já pensou em trabalhar com mídia publicitária? Publicidade está em alta, sabe?"

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O Escritor


            Eu conheço algumas pessoas que escreveram livros.  Livros sobre arte, psicologia, didáticos, livros sobre diversos assuntos abordando diversas ciências e hobbies. Mas são poucas as pessoas que conheço que escrevem fantasias.
            Certa vez conheci um homem assim. Um homem cuja criatividade misturada à uma pena dava ao papel em branco um significado completamente diferente. Da tinta na ponta de aço saíam não apenas ideias, mas criaturas, lendas, heróis, mundos inteiros. Estes mundos vibravam com vida a cada palavra lida em suas estórias e, junto aos personagens profundos e bem elaborados, dava toda uma atmosfera que podia quase ser tocada com a mente dos leitores mais ávidos.
            Escrever um livro sobre um assunto que você é mestre é um trabalho para qualquer um que é bom no que faz. Você simplesmente pega um assunto, digamos computação, e então você começa a escrever tudo o que você sabe sobre aquilo nos capítulos relevantes e por aí vai. Você coloca os seus conhecimentos em um papel e não é lá muito diferente de um diário. Mas mesmo aí o diário ainda é mais complicado... Você consegue passar os seus sentimentos do dia para uma folha pautada ou em branco? Complicado, não? Escrever ficção é a mesma coisa. Você precisa criar mundos inteiros e personagens que se encaixem naquele contexto e cada um terá sentimentos, histórico, ligações emocionais e toda uma mentalidade própria dentro do mundo e sociedade fictícia em que ele foi criado. Nem todos tem esse dom.
            Mas ele tinha. Este meu amigo conseguia fazer tudo isso como em um passe de mágica e sua criatividade era de dar inveja. Editoras brigavam para publicar seus livros e qualquer um que o agenciasse era considerado altamente sortudo naquele nicho específico. Sua mente era responsável por best sellers e por crônicas lidas até pelos mais leigos no jornal diariamente. Deuses, sua criatividade era tanta que, outrora, ele escreveu episódios para séries de TV e outros programas. Não é preciso dizer que emissoras brigaram por ele também.
            Mas... Como todo grande ídolo, ele tende a cair. É comum perder coisas na vida. Festas, compromissos, empregos, apostas e principalmente entes queridos. Foi isso. Depois de perder esse alguém parecia que meu amigo tinha perdido tudo. No começo eu ainda tentava conversar com ele para tentar reavivar um pouco da antiga relação entre mentor e aluno, entre amigos. Nada. Ele não escrevia, ele não lia, ele quase não falava e com o tempo ele mal saía de casa para andar.
            Houve um tempo em que eu olhava para aquele homem e via uma pessoa forte a qual eu admirava muito. Hoje em dia, quando o vejo sentado em sua mesa no canto do Café do Geléia olhando para a rua esquálida e abjeta lá fora, tudo que vejo é o corpo vazio de um grande homem. Um homem cuja vida inteira foi escrever. Hoje, pela idade avançada e pela vida triste, não entende uma palavra que lê e nem outra que escreve.
            As vezes penso: “É possível ficar de luto por alguém que não morreu?”

Meu avô, Luiz Taddeo, em entrevista para o SP TV no dia de lançamento de seu livro "Improviso para Leila" em Dezembro de 1984.

              Esta postagem é o mínimo de homenagem que posso fazer para meu avô, que completou seus 84 anos no dia 23 de Agosto deste ano. Obrigado pelo mundo que me proporcionou.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Emprestado


            Um objeto que boa parte das pessoas tem é uma prateleira. Como o nome implica, ela foi criada provavelmente para se colocar prataria, mas todos preferimos usá-las para colocar de forma ordenada (ou não muito) bonecos, porcelana, eletrônicos, troféus... Mas principalmente gostamos de usá-las para depositar livros.
            Qualquer pessoa que gosta de ler sabe que nada se compara ao cheiro de um livro novo, aquele cheirinho de livraria, o aroma que sai delicadamente do livro conforme o folheamos sem motivo aparente. A cena vista ao entrar em uma grande biblioteca, com seus pilares e paredes de livros, é algo de emocionar o bom leitor. E voltando ao aroma, até mesmo aquele aroma de livro velho encontrado em sebos é cativante! Pode perguntar para qualquer um que goste de livros e ele não irá negar. Mas um bom livro não merece ficar apenas na prateleira.
            Geléia adorava colecionar livros e mantinha um olho muito atento naqueles que ficavam disponíveis em seu café. As pessoas vinham pegavam um de alguma das pequenas prateleiras dispostas no local, se sentavam confortavelmente com seus cafés e liam até a hora de ir embora. Certa vez, quando estava limpando o local, percebeu que faltava um único livro. Olhou para os clientes e viu que nenhum tinha o que estava faltando, logo começou a estranhar. Ele não era de emprestar livros e sua confusão começou a crescer.
            - E aí, Geléia! – Falou a Cineasta, que entrava pela porta.
            Geléia só continuou pensativo com seu livro.
            - Tá tudo bem, cara? – Ela perguntou preocupada. – Cê tá meio pálido...
            Ele a olhou devagar e respondeu:
            - Desculpe, querida, mas é que estou meio confuso. Não acho um de meus livros...
            Ela olhou para a prateleira e sorriu.
            - “O Forte Sangrento”?
            - Esse mesmo! – O gerente parecia empolgado.
            - Você me emprestou, cara! Relaxa!
            Ele ficou mais aliviado, mas ainda estava um pouco apreensivo pois as pessoas tinham o costume de dobrar as capas de livros para trás, estragando toda a lombada.
            - E já terminou de ler? – Ele se aproximou para perguntar e não conseguiu esconder um pouco de medo em sua voz.
            - Sim! - Ela estava pendurando o casaco em uma cadeira.
            - Gostaria de tê-lo de volta...
            A Cineasta ficou pálida por um segundo e logo foi tomada por uma vermelhidão. Sua cara estava quente.
            - Ah, é... Certo, eu vou te... Hum, Posso talvez, é...
            Ela não fazia sentido. Geléia a encarou de forma dura. Depois de um suspiro ela cedeu.
            - Ah, tá legal...Eu emprestei para uma amiga, ok?
            Pânico.
            O Gerente arregalou os olhos. Se ele fosse asmático com certeza pegaria sua bombinha agora, mas ele conseguiu manter a calma correndo o mais rápido que podia em direção a cozinha e tomando, em apenas um gole, um grande copo de água. Voltou para a Cineasta.
            - O que? – Disse calmamente.
            Ela começou a ficar apavorada.
            - Eu emprestei... Foi mal...
            - Ela cuida bem dos livros?
            - Nunca vi as lombadas destruídas, se é o que quer saber.
            Geléia fez um barulho leve com a garganta que a Cineasta entendeu como uma leve reprovação e então se sentou em seu lugar.
            - Acho que você precisa ficar sozinho por um tempo. – Sugeriu para o amigo gordo.
            E ele voltou ao seu trabalho.

            Quando começou a chegar a fim da tarde Geléia, agora calmo, se dirigiu até a Cineasta com um cappuccino fresquinho para ela. O depositou na mesa e ficou ali parado.
            - Desculpe se fiquei nervoso, minha querida.
            Ela voltou seus olhos para ele e sorriu.
            - Tudo bem, imagino como se sente. Eu tenho filmes que não empresto. Mas relaxe, ela cuida bem dos livros. Garanto.
            Geléia sorriu de olhos fechados e ao começar a se dirigir para longe da mesa disse:
            - Se ela os ler... Com certeza os trata melhor do que eu.

"A Cineasta ficou pálida por um segundo e logo foi tomada por uma vermelhidão. Sua cara estava quente."

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Duelo


            Todos estavam olhando. A expectativa sobre ele era grande e isso fazia com que ele se sentisse absolutamente pressionado. Eles deviam parar pois fica difícil se concentrar nessas circunstâncias. Por um segundo sua dúvida, enquanto se reerguia e tentava ajeitar as costas, foi: Eles deviam parar? Ou eu deveria parar de ligar para os meus arredores?
            Enquanto pensava também lembrava do que fora ensinado e, logo, corrigiu sua postura. Pelo menos ela estava correta. Ele ouvia o instrutor lhe dando advertências mas não conseguia entender muito bem, pois o capacete estava quente e estava quase apertando seu cérebro, tornando audível a circulação de seu sangue.
            Tum-Tum.
            A batida do coração era seu foco no momento. Tum-Tum e mais nada. Ele não queria ouvir os expectadores e nem seu próprio instrutor, ele queria sentir. Queria sentir a batida e se reposicionar no mundo, se concentrar e se lembrar de tudo que fora ensinado.
            Tum-Tum.
            Tentou se posicionar melhor. Joelhos flexionados, costas eretas, mão esquerda erguida.
            Tum-Tum.
            Posicionou melhor os pés, testando o equilíbrio e a força em seus joelhos. Estava no duelo há muito tempo e podia sentir o corpo cansado e o suor parando em sua sobrancelha.
            Tum-Tum.
            Ergueu melhor a mão esquerda distribuindo com mais eficiência o equilíbrio de seu corpo. Levantou o braço direito em posição de estocada. Os batimentos o lembravam que as mãos também suavam e parecia que seu florete cairia a qualquer momento, e por mais que as luvas impedissem isso de acontecer ele ainda se sentia desconfortável.
            Tum-Tum.
            Fechou os olhos.
            Se imaginou na sala em que estava, mas escura. Ele usava branco. Na escuridão pressentiu que o inimigo se aproximava e, como em um filme em câmera lenta, a ponta do florete veio em direção ao seu rosto. Desviou com sua própria arma e mexeu rapidamente os pés, quase que saltando para a direção oposta de seu inimigo. Naquele momento ele pôde analisar cada golpe, cada movimento, cada desvio, cada falha na tática de seu adversário.
            Quando abriu os olhos ainda estava parado e não ouvia mais a sua circulação. Tudo havia voltado ao normal e ele estava ouvindo os comentários e a motivação da plateia. Seu inimigo estava exatamente onde ele havia visto. Sua posição estava correta e ele estava pronto, quase que arrogantemente confiante. Enfim lançou:
            - Vai ficar parado aí o dia todo? – Um sorrisinho foi esboçado por debaixo do capacete.
            O inimigo avançou e, como tinha visto antes, parecia que tudo estava em câmera lenta. Sua preparação funcionou e ele podia ver todos os golpes milissegundos antes de acontecerem. Terminada a investida do adversário, ele fez seu avanço. Estocada, investida, bloqueio, desvio, balanço e finalmente a investida que garantiu seu sucesso. Todos paralisaram. Depois, seu inimigo começou a aplaudir e a plateia o acompanhou. Ele decidiu abaixar seu florete e se juntar ao aplausos. Os dois duelistas estavam rindo juntos e a vitória ficou clara.

            O Conde tirou seu capacete e foi cumprimentar seu professor de esgrima.
            - Obrigado, milorde! Sem vossa valorosa força de vontade em me ensinar, jamais teria vencido tal batalha!
            Seu professor riu e tirou o capacete também. Coçou a barba enquanto ria e disse:
            - Foi um prazer duelar com você! É com certeza um de meus melhores alunos.
            O Conde fez reverência.
            - Que tal comemorarmos com o resto da sala? – Convidou o professor.
            Parou por um segundo, pensou e sorriu para seu mestre.
            - Se quer comemorar, conheço um ótimo lugar que acabou de reabrir.

"Tentou se posicionar melhor. Joelhos flexionados, costas eretas, mão esquerda erguida."

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Surpresa


            O Artista estava entediado. Durante as ultimas semanas ele ficou passeando de café em café, procurando algo que chegasse pelo menos ao pés do, atualmente fechado, Café do Geléia. Nada o convenceu. O café não tinha o mesmo gosto e por mais que ele gostasse de ficar sozinho em seu canto, tinha alguma coisa no café que era diferente.
            De lugar em lugar, de mesa em mesa, sempre havia algo errado. Se sentava sozinho, a inspiração não lhe ocorria e, no máximo, se sentia apenas sozinho demais. As vezes tinha a impressão de que fazia, sem querer, uma cara de criança pedindo por amigos. Quando pensou nisso a primeira vez se lembrou imediatamente do Menino Ottis perambulando pelo café com seu refrigerante, ou tentando filosofar com Diego, o único do Café que tinha uma mentalidade parecida com a sua (Mentalidade esta que o Artista compartilhava, mas não admitia).
            De xícara em xícara, de sabor em sabor, sempre tinha algo diferente. Mas nada bom. Ninguém parecia capaz de lhe preparar um café gelado com chantilly e cobertura de caramelo que se igualasse ao do Gelaccino do Café do Geléia. E onde mais o Artista poderia ter a honra de dizer que o nome foi dado por ele? Nenhum lugar tinha uma bebida onde ele levava créditos. Esta era uma frustração que ele com certeza teria dividido com a Cineasta Desacreditada. Ela lançaria algum comentário sarcástico e os dois ririam das próprias desgraças como “Artistas Famintos”. Depois ele pararia de ouvir o mundo para olhar o sorriso com aparelho dela.
            De ambiente em ambiente, de musica em musica, o aconchego era outro. Confortável sim, mas não o suficiente...Faltava algo, faltavam as pessoas certas. O Artista tinha saudade dos três pilantras com Ernesto fazendo planos enquanto Tremoço e Diego interpretavam cada um de sua maneira. Helen conversava com a Cineasta enquanto ao fundo a gangue do Ottis ria com alguma coisa infantil enquanto K.D. enfeitava a mesa com algum capacete diferente. Era estranho você simplesmente chegar na porta de um Café sem ser recebido pelo Viras, mais estranho ainda era um Café sem um constante arrepio na espinha, em certas noites nevoadas, por causa da presença misteriosa do Gótico que, muito provavelmente, estaria na mesma mesa do Conde.
            Mas o pior de tudo, era não ser recebido pelo seu grande amigo no lugar que era seu sonho. Geléia era um amigo muito especial na vida do Artista e o dia-a-dia sem ele era, no mínimo, esquisito e tedioso.
            Em meio as suas andanças por cafés, o Artista decidiu voltar ao local que fora fechado. Tinha certeza de que estava andando mais rápido do que o normal até seu objetivo enquanto ouvia musica alta para ignorar o mundo a sua volta julgado inútil. Andou um bom tanto e chegou ao local. Estava igualzinho a ultima vez que o viu, impecável e expressava um ar de conforto e aconchego. Seu santuário. Se aproximou, olhou pelo vidro e viu o que esperava. O Velho ainda estava lá, do jeito que o Geléia tinha deixado, e o Artista não pode conter um sorriso, principalmente quando, vindo da esquina, chegou Viras, todo cabisbaixo. O Artista se sentou à porta com um ar desolado, mas esperançoso e lá ficou. O cão sentou ao seu lado enquanto recebia carinho e os dois adormeceram no local, como crianças fazem ao esperar papai noel.

            O Artista acordou num salto ao ouvir a porta abrindo e se levantou com uma rapidez que o impressionou. Corrigiu sua postura e olhou para trás para ver o que tentara abrir a porta.
            - Desculpe se o assustei, artiste. – Disse Geléia, com aquele sorriso jovial de sempre no rosto. Ele estava parado à porta, usava um chapéu e tinha um bronzeado novo.
            O Artista quase chorou de emoção e abraçou o velho amigo.
            - É bom vê-lo de novo, Geléia! – Eles se abraçaram.
            - Eu disse que era temporário, garoto, mas... Ninguém acredita, por melhor que seja seu discurso.
            Os dois ficaram parados à porta por um tempo até que Geléia arriscou:
            - Agora... Sendo meu primeiro cliente, que tal um Gelaccino e alguns pães de queijo?
            - Achei que nunca fosse perguntar!

"Corrigiu sua postura e olhou para trás para ver o que tentara abrir a porta."

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Férias


            Finalmente estava fazendo um pouco de frio. Ainda não era o frio desejado pelas pessoas que gostam dele, mas era um frio onde as pessoas poderiam tirar blusas do armário e cachecóis das gavetas, se assim quisessem. Gorros também poderiam ser bem vindos. Em meio a pessoas reclamando da temperatura e do céu nublado andava o Artista, levando consigo seu caderno e indo em direção ao lugar mais aconchegante que conhecia.
            Chegando ao local, o rapaz viu pessoas paradas na porta de entrada. Algumas olhavam dentro e depois iam embora, outras passavam reto, mas os clientes mais fiéis estavam parados na porta como que esperando algo. O Artista se aproximou e perguntou para a Cineasta:
            - O que está acontecendo? – E olhou para dentro do Café vazio.
            - A placa na porta diz “Fechado”, cara... Mas o Geléia nunca fecha nesse horário... – Respondeu ela enquanto tentava esquentar as mãos esfregando-as.
            - Sim, este é o horário que todos saem do trabalho e querem um café... – Disse Tremoço, que trazia consigo um rolo de corda no ombro e uma picareta em uma mão. Diego e Ernesto tinham capacetes de segurança e pás.
            Durante as conversas sobre o que poderia estar acontecendo, Menino Ottis desceu de uma das vidraças e disse:
            - Ei, pessoal! O Velho está lá dentro, como sempre! Quem sabe ele não possa abrir para nós?
            Todos começaram a batucar no vidro tentando chamar a atenção do velho, que parecia dormir com o sorriso estampado no rosto. Ele não se moveu.
            - O Velho inútil deve ter morrido! – Disse Ernesto, emburrado. Diego o socou no ombro.
            Dado um tempo todos viram Geléia vindo dos fundos do Café. Ele usava um suspensório e chapéu. Se aproximou da porta envidraçada e abriu-a com a chave de um molho bem recheado.
            - Não viram a placa, pessoal? – Ele perguntou, mas logo deu espaço para eles entrarem. Geléia começou a colocar as cadeiras em cima das mesas.
            - O que está acontecendo, Geléia? – Helen se aproximou do amigo para fazer a pergunta.
            - Estou arrumando o lugar, oras.
            - Para ninguém? – Perguntou o viajante olhando em volta.
            Geléia suspirou. Depois de colocar mais uma cadeira em uma mesa ele lançou:
            - Estou fechando o Café.
            Caos. Tristeza. Depressão. O Gótico aparecera. Todos estavam em choque. Depois de mais um tempo arrumando o local, e percebendo o desespero de seus amigos, ele disse:
            - É por um tempo indeterminado. Estou precisando de umas férias...
            - Mas você adora trabalhar aqui!!! – Gritou Menino Ottis que estava com a cara toda espremida por causa das lágrimas. Geléia o abraçou.
            - Sim, eu adoro. E vou sentir saudades de todos vocês.
            - Então não vá! – Diego abraçou o gerente que tossiu pela força do ato.
            - Não podes abandonar seu cargo, ó Taverneiro! Tens um dever para com este seu grupo de amigos inigualáveis! – O Conde queria morrer de maneira Shakespeariana.
- Eu não sei para onde vou. Mas vou para alguns lugares. – Geléia ajeitou sua roupa – Vocês me proporcionam as melhores noites e as melhores histórias. Vocês tornam o cotidiano algo melhor. Vocês tornam este lugar o que ele é... Mas sinto que, no momento, como o contador de histórias que sou, preciso de histórias novas... Espero que entendam...
Menino Ottis o abraçou mais uma vez e disse:
- Boas férias, Geléia. Não se esquece de voltar, tá?
- Não esquecerei, garoto.
Helen disse para ele aproveitar ao máximo e que ele precisava mesmo de umas férias. A Cineasta disse para ele voltar com o máximo de histórias possível. O Conde lhe deu uma adaga de prata como um símbolo de boas aventuras e proteção na jornada. O Gótico lhe deu uma lágrima em um frasco e sumiu sem ninguém ver. O Viajante pediu ajuda com a bagagem emocional para sair do local. Os maiores pilantras do Café lhe pediram ouro Peruano, caso passasse pelo Peru.
- Lhes trarei um baú. – Disse o gerente, jovial como sempre.
Depois de todos se despedirem, o Artista veio para perto do amigo.
- Se tornou uma obrigação não é? – Disse por fim.
- O que? – perguntou Geléia.
O Artista gesticulou para o local.
- Isso tudo... Seu sonho se tornou um dever...
- É um motivo, devo admitir.
O Artista deu um pequeno sorriso e abraçou o amigo.
- Vou sentir muito sua falta, amigo...
Geléia não conseguiu conter a lágrima.
- Prometo que é temporário.
- Aproveite bastante, Geléia. Você merece. – Com isso, o Artista se virou e foi embora para a noite nublada.

            Geléia pegou sua mala, vestiu o casaco e pegou seu cachecol. Apagou as luzes e deu uma última olhada para o seu local. Seu santuário. Fez um último carinho em Viras e lhe assegurou que teria comida enquanto ele estivesse fora, pois pediu para um amigo cuidar dele. Pegou finalmente as chaves e foi fechar a porta.
            - Cuide bem do local para mim sim, Velho?
            O Velho fez um pequeno gesto com a mão. Geléia sorriu.
            - Prometo não demorar.

"Cuide bem do local para mim sim, Velho?"